novembro 29, 2007

Artigos: Privatização da notícia.

Posted in Artigos às 11:25 pm por espacointuicao

Não poderia deixar de divulgar o artigo abaixo, Talvez vocês todos já o tenham lido, mas o texto merece ser divulgado uma vez mais.

O artigo escrito na Folha de S. Paulo, de 27/11/2007 é de autoria do Carlos Alberto Libânio Christo o “Frei Betto”, um homem de grande credibilidade, muito culto, uma capacidade analítica incomparável e dotado de um alto grau de discernimento.

Não é necessário nenhum comentário a mais, o texto por si só é esclarecedor. Do texto publicado destaquei as partes que considero mais importantes no discurso do preclaro escritor:

Numa sociedade marcada pela desigualdade e pela “cultura da morte”, denunciada por João Paulo 2º, a lei de talião tende a prevalecer sobre a ação política capaz de assegurar à maioria condições dignas e pacíficas de vida. O mais grave, porém, como o comprova o filme “Tropa de elite”, é a polícia e o cidadão, céticos ante os recursos legais, como o Judiciário, adotarem o mesmo procedimento dos bandidos. Prende-se ao arrepio da lei, tortura-se, esfola-se, mata-se, reduzindo caso de política a caso de polícia.(…)

(…)Restaura-se a lei de Lynch, agora turbinada pelo sofisticado apelo à terceirização: já não é preciso que o cidadão suje as mãos de sangue ao linchar o bandido. A polícia é paga para que o faça, respaldada pela impunidade e pelo apoio desse segmento da população convencido de que “bandido bom é bandido morto”.


O paradoxal é que os mesmos que defendem o método “olho por olho, dente por dente” são contrários aos direitos humanos… Exceto os deles! Eles, sim, querem para si todos os direitos da Carta da ONU, que, em 2008, comemorará 60 anos. O paradoxo se explica por serem portadores da mesma antiética do preconceito e da discriminação que motivou colonizadores ibéricos ao massacre dos indígenas da América Latina, Hitler ao holocausto dos judeus e Bush ao genocídio no Iraque.
É dom de Deus a biodiversidade. E deveria nos servir de parâmetro para a vida social, sem transformarmos a diferença em divergência, como ocorre com freqüência entre patrão e empregado, branco e negro, ocidental e oriental etc. É o que sublinha o episódio bíblico da torre de Babel. Seus construtores a erigiam movidos pelo orgulho de “falar uma só língua” (unanimidade) e de inverter, “prometeicamente”, a relação entre Criador e criaturas: a torre simbolizava o poder humano de penetrar os céus e destronar Javé. Este, porém, preferiu a pluralidade à unanimidade, diversificando a linguagem. O que aos humanos pareceu confusão e maldição era bênção aos olhos divinos.

O preconceito, raiz da discriminação, nos é incutido pela cultura advinda da família, da escola, da mídia. Faz-me temer o semelhante porque ele não se veste tão bem quanto eu, não tem uma aparência que me agrada, adota atitudes que suspeito ameaçadoras, manifesta idéias que não coincidem com as minhas… Em nenhum momento o preconceituoso se dá conta de que ele é mero acaso da loteria biológica. Não escolheu a família e a classe social em que nasceu. E, num mundo em que, de cada 3 nascidos vivos, 2 nascem condenados à pobreza e à miséria, o privilégio de estar acima da linha da pobreza deveria ser encarado como uma dívida social.(…)


Hoje, [a violência Urbana] ocorre no atacado, com gangues organizadas, do narcotráfico (abastecido pelo mesmo consumidor que aplaude o policial que mata bandidos) aos comandos carcerários.(…)

Os apologistas de Lynch não percebem que, enquanto as causas da violência não forem atacadas, eles também se tornam vítimas da mais sutil violência: o medo interiorizado.(…)

É tudo que o sistema espera de todos nós: mudemos os métodos, não o próprio sistema. Assim, aprimoram-se os recursos repressivos -escutas telefônicas, vigilância eletrônica, gases paralisantes- sem abrir os olhos à cultura do óbvio, apontada pelo profeta Isaías há 2.700 anos: só haverá paz como fruto da justiça. O que, em termos atuais, significa que, sem democracia econômica, a democracia política será sempre um arremedo virtual.

(*) Imagem de Frei Betto no Wikipédia, disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/58/Frei_Betto_25385.jpeg/200px-Frei_Betto_25385.jpeg
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Referências Bibliográficas

CHRISTO, CARLOS ALBERTO LIBÂNIO ( Frei Betto). Privatização da Revolta. artigo para folha de S. Paulo, caderno Opinão em 27/11/2007. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2711200709.htm, 29/11/2007 as 21:47.

novembro 25, 2007

Quanto Vale uma notícia…

Posted in Artigos, Meus textos às 11:15 pm por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo
É público e notório que hoje em dia há uma revolução nos meios de comunicação, devido principalmente à disseminação da Internet, ao avanço da transmissão de dados por meio eletrônico com uma rapidez nunca antes vista em toda a história do homem. Essa revolução acaba afetando a mídia escrita e televisiva, acirrando a concorrência e excluindo da competição aqueles jornais e revistas de menor poder econômico em benefício de outras mídias aliadas do poder burguês e com fôlego para competir com os meios de transmissão de dados eletrônicos e prosseguir em suas atividades. No entanto, os interesses desses grandes grupos inclinam-se pouco ou nada ao interesse público, mas para seus próprios interesses. Como saída para essa situação, Jürgen Habermas manifestou uma opinião controversa, conforme descrevo abaixo.

O notável filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas (1929), causou impacto – segundo informações no caderno Mais, publicado na folha de S. Paulo de 27 de maio de 2007 – ao rever o papel do Estado na comunicação de massa na Alemanha.

Habermas refere-se à mídia como “o quarto poder”, e sustenta a intervenção do Estado na manutenção de veículos de comunicação que difundam as notícias com qualidade e neutralidade. Ou melhor, é preciso que o Estado assuma a condução de jornais, revistas, mídia televisa que sejam “formadoras” ou informadoras do público e que estejam em crise.

Essa intervenção, justifica-se, segundo Habermas, como um dever do Estado, tal qual o provimento de Energia Elétrica, gás ou água. O Estado estaria protegendo o interesse público: a informação. resguardando-a da malícia e da busca desenfreada de lucro. Essa crise da informação poderia “avariar” a soberania do Estado, destruindo ou deturpando os fundamentos democráticos em benefício dos interesses econômicos.

Habermas afirma que não só subvenções diretas, mas a criação de fundações com capital público acena como uma solução para o estado caótico de algumas mídias responsáveis pelo “abastecimento” informacional das massas.

Acima de tudo, Habermas evoca a crítica adorniana da indústria cultural como ponto central. E a questão central: Será que poderia haver uma membrana impermeável que impedisse às determinações econômicas de penetrar nos “(…) poros dos conteúdos culturais e políticos dispersos no mercado”?

Seja como for, é uma idéia no mínimo inusitada. Pois, pensar em um monopólio das informações pelo poder econômico é uma ideia terrivelmente assustadora que poderia arrebatar-nos a uma realidade como aquela exposta por Aldous Huxley(1894-1963) em sua obra de 1932: “Admirável Mundo Novo”. A afirmação do Estado enquanto protetor das mídias decadentes que não conseguem, devido ao estado de coisas atual, manterem-se no mercado e levar uma informação mais “limpa” e neutra aos leitores sugere sua intervenção para evitar a derrocada da democracia, na Alemanha. Esta sustentação é ainda temerosa, pois a informação poderá ser manipulada para legitimar o poder de Estados autoritários e antidemocráticos.

O questionamento de Habermas traz à luz um cenário atual, onde o poder do Estado esvaiu-se ou está em vias de tal; sendo que, em seu lugar, assumiu o poder as megacorporações. Isto posto, seria a confirmação cruel de que a ordem democrática já não existe mais, ou, se existe, sobrevive sob o jugo do poder econômico.

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Referências Bibliográficas

HABERMAS, Jürgen. O valor da notícia. In. Folha de S. Paulo, 27/05/2007.

novembro 22, 2007

Sobre professores apaixonados.

Posted in Meus textos às 10:36 pm por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo

Durante o nosso curso de graduação, estivemos várias vezes nas escolas públicas para executarmos nosso estágio supervisionado. O estágio supervisionado, como disciplina dos cursos de graduação em licenciatura, visa introduzir o aluno na realidade das escolas, local onde desempenharão suas atividades. Esse contato acompanhado de uma abordagem teórica amplia a visão do aluno, futuro professor, enquanto ele exercita as técnicas apresentadas durante o curso.

No meu período de estágio, nas escolas públicas, pude comprovar o quanto a nossa educação decai. A cada ano vemos um crescente declínio na qualidade da educação, nos investimentos e principalmente na idéia de educação. Para as crianças de hoje, a educação não é mais fundamental. A completa ridicularização e alienação da cultura, substituída por uma “pseudocultura”, às vezes inútil, alienante, onde as ideologias capitalista forjam os comportamentos guiando seus adeptos para o consumo, a satisfação desenfreada de prazeres imediatos está contribuindo, em minha opinião, para a derrocada da nossa educação. Todo esse aparato seduz os alunos, movendo o foco de suas expectativas para os atrativos modernos.

Por outro lado, observei que os professores, completamente desestimulados não correspondem às demandas dos alunos. Estão apáticos, não inspiram seus alunos a buscar o saber, as delícias do descobrir, da curiosidade, o regozijar da compreensão. São carrancudos, desinteressados, às vezes mercenários, acima de tudo, constatei que tratam o ensino como uma mera profissão. Existe ainda a questão da remuneração que é um fator para tal desencorajamento.

Como disse acima, cheguei a pensar que toda essa degradação do ensino fosse um sinal dos tempos, “na minha época não era assim…”. No entanto, em uma de minhas leituras, deparei-me com um relato sobre os professores da década de 40 nos Estados Unidos. O depoimento é do professor de Astronomia e ciências espaciais da Cornell University, Carl Sagan(1934-1996). Autor de dezenas de artigos de livros científicos e autor de Best-Sellers como o livro “Cosmos”. Astrônomo respeitado e crítico ferrenho das consideradas “pseudociências”. Abaixo transcrevo um parágrafo da sua obra, “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro”. O que posso notar é que o meu sentimento foi traduzido nas linhas abaixo, infelizmente:

“Gostaria de poder lhes contar sobre professores de ciências inspiradores nos meus tempos de escola primária e secundária. Mas, quando penso no passado, não encontro nenhum. Lembro-me da memorização automática da tabela periódica dos elementos, das alavancas e dos planos inclinados, da fotossíntese das plantas verdes, e da diferença entre antracito e carvão betuminoso. Mas não me lembro de nenhum sentimento sublime de deslumbramento, de nenhum indício de uma perspectiva evolutiva, nem de coisa alguma sobre idéias errôneas em que outrora todos acreditavam. Nos cursos de laboratório na escola secundária, havia uma resposta que devíamos obter. Ficávamos marcados, se não a conseguíamos. Não havia material visivelmente interessante. O ano escolar acabava sempre antes de chegarmos até aquele ponto. Podiam-se encontrar livros maravilhosos sobre astronomia nas bibliotecas, por exemplo, mas não na sala de aula. A divisão pormenorizada era ensinada como uma receita culinária, sem nenhuma explicação sobre como essa seqüência específica de pequenas divisões, multiplicações e subtrações conseguia conduzir à resposta certa. Na escola secundária, a extração da raiz quadrada era dada com reverência, como se fosse um método entregue outrora no monte Sinai. A nossa tarefa era simplesmente lembrar os mandamentos. Obtenha a resposta correta, e esqueça se você não compreende o que está fazendo. Tive um professor de álgebra muito competente, no segundo ano, com quem aprendi muita matemática; mas ele era também um valentão que gostava de fazer as meninas chorarem. Meu interesse pela ciência foi mantido durante todos esses anos escolares pela leitura de livros e revistas sobre a realidade e a ficção científicas.”(SAGAN, Carl, 1996, p. 13-14)

A impressão de Carl Sagan foi, na maioria das vezes, compartilhada por mim durante o período de estágio nas Escolas do ensino público de Pará de Minas. Entretanto, cabe a nós professores descobrirmos novos caminhos para solucionar o problema da educação e provocar nos alunos aquele desejo gostoso de aprender, de entender, de querer buscar.

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Referências Bibliográficas

SAGAN, Carl. Prefácio – Meus professores. In.: O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Trad. Rosaura Eichemberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. (pp. 13-14)

novembro 20, 2007

Teoria da Relatividade ou Relatividade da Teoria

Posted in Meus textos às 10:27 pm por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo

Toda teoria tem seu limite, e é completa enquanto dure. Tal como acontece nos meios acadêmicos entre as ciências sociais, os projetos nunca devem ser traçados como absolutos. Aliás, todo o conhecimento humano baseia-se na negação. Talvez devêssemos escutar Hegel com sua aguda percepção em riste ao problema do conhecimento. Toda a existência do cosmo baseia-se nos contrários, à medida que algo vai se firmando como verdadeiro, imutável; enfim, um evento ao se firmar, exasperam-se em seu interior contradições que chegarão a ponto de destruí-lo produzindo um novo evento. E de eventos em eventos, parindo o “novo”, o universo “caminha”. Ao pobre Homem, incapaz de conceber o todo, cabe apenas compreender a parte. Mas, o todo que está na parte não se mostra como todo a não ser como contradição do evento. Assim, todo evento é um evento e potencialmente um contra-evento.

Heráclito entenderia bem isso; a mudança constante, eterna, o que “é”, gestando dentro de si o que potencialmente poderá ser. Até o momento da substituição onde o que “é” deixa de “ser” para se tornar o novo. A Potência se torna Ato, como dizia Aristóteles.

Um exemplo desse constante devir é a interessante publicação na folha de S. Paulo, coluna ciência, em 23/06/2007, onde descreve que a “teoricamente” comprovada teoria da existência dos Buracos Negros estaria negada.

Com efeito, John Brockman, assinalava anos antes que, caso existissem, os buracos negros talvez não fossem “negros”.

Karl Schwarzchild, esboçou matematicamente, o que poderia acontecer com um corpo submetido a uma força gravitacional tão poderosa que fosse capaz de encolhê-lo além do limite da “própria trama do espaço”. Anos mais tarde John Wheeler batizou-os “Buracos Negros”.

“admite-se agora que os buracos negros sejam estrelas gravitacionalmente contraídas, tão densas que uma colher de sopa de sua matéria pesaria mais de um bilhão de toneladas. Originalmente acreditava-se que nada, nem mesmo a luz, poderia escapar deles. Por essa razão, os astrônomos postulavam inicialmente que os buracos negros fossem completamente invisíveis.(…) [para um grupo de cientista] são na realidade protogaláxias, mostrando como todas as galáxias eram em sua infância. Outra escola de pensamento sustenta que as galáxias se formam primeiro, depois as estrelas densas em seus centros se coalescem e se contraem formando os buracos negros”(BROCKMAN. 1988:48-49).

Um ponto no espaço de onde nada pode escapar. Um vórtice do espaço-tempo onde nem a luz escaparia e que toda a matéria em seu limiar, ou “horizonte de eventos” como os cientistas os chamam, através da enorme atração gravitacional, desabam em direção ao centro. Nessa queda acelerando-se continuamente a matéria “engolida” poderia adquirir energia suficiente para que parte dela escapasse retornando ao espaço em jatos de radiação. Através dessa energia poderíamos observar os buracos negros, que já não seriam negros e sim, poderíamos dizer, “buracos brancos”.

Já podemos notar as controvérsias do processo de concepção e formulação desses maciços corpos celestes.

Um trio de cientistas norte-americanos apresenta uma outra versão para os propalados buracos negros. Segundo Krauss, um dos cientistas, a “(…) matéria concentrada no local evaporaria toda na forma de radiação, assim com Hawking previu, só que antes de o buraco negro se formar. O que existiria então, é uma espécie de ‘quase-buraco negro’”(GARCIA, 2007:A35). Eles dizem poder comprovar suas teorias com os novos mega-aceleradores de partículas.

Os aceleradores de partículas se parecem com gigantescos tubos, estendendo-se às vezes por quilômetros, onde através de um extraordinário campo eletromagnético, especialmente produzido, uma partícula é acelerada até atingir velocidade, bastante elevada, próxima a da luz. Destarte, submetendo a matéria sob tais condições, os cientistas podem observar seu comportamento e, até mesmo simular o decaimento da matéria em direção aos maciços centros gravitacionais.

O mais importante do texto acima é que, a todo o momento, teorias são postas à prova, algumas resistem por determinado tempo, outras perecem mais rapidamente. Nada garante que complexos modelos, bem testados, bem elaborados e fundamentados em leis até então sólidas e aceitas, sejam questionados e refutados em um futuro próximo.

Isso vale mais ainda para o historiador que trabalha com algo que não pode tocar, não pode experimentar. O seu objeto não pode ser submetido às experiências; não se pode misturar, por exemplo, fatos em um tubo de ensaio e levá-los a uma centrífuga para depois observá-los e ver o resultado. Os Fatos já não existem mais, são como revérberos do passado. O documento, a obra de arte, a poesia, a memória, a imagem é sua única matéria prima para trabalhar e analisar o fato. Por isso, o Historiador pode apenas supor, idealizar, utizando-se de um método e dos rastros deixados pelo fato para concluir sua análise.

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Referências bibliográficas

BROCKMAN, John. Einstein, Gertrude Stein, Wittgeinstein e Frankstein: reinventando o universo. Trad. Valter Ponte. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

GARCIA, Rafael. Buraco negro não existe diz trio de físicos dos EUA. Folha de S. Paulo, São Paulo: 23/06/2007 – Coluna ciência (P. A35).

novembro 18, 2007

Área de Humanas X Área de Exatas

Posted in Meus textos às 8:03 pm por espacointuicao


Sinópse: O histórico preconceito entre os cientistas das ciências consideradas da Natureza e os cientistas das ciências do Homem. Ao físico, matemático ou químico o objeto de estudo das ciências sociais (humanas), como a História, Sociologia e Antropologia, parece um tanto obscuro e indefinido. Porém, alguns escritores apresentam argumentos contra esse tipo de comportamento e tentam teorizar sobre o objeto das Ciências Humanas. Abaixo segue uma breve reflexão sobre o tema.

Por Joandre Oliveira Melo

Achei interessante o artigo publicado na folha de São Paulo pelo psicanalista e professor da PUC/SP, Renato Mezan. O nome do artigo é: “Sobre pesquisadores e andorinhas” e foi publicado em 29/04/2007, no caderno Mais.

Em resumo, o autor reflete e, ao mesmo tempo, rebate a idéia, equivocada, de que os pesquisadores e cientistas das especialidades de exatas têm sobre o objeto de estudo e o método de análise dos profissionais da área de humanas.

Segundo o autor, os tempos estão mudando com relação às pesquisas; onde antes trabalhava solitariamente um cientista, hoje em dia, trabalha-se em equipe. Os projetos agora não remetem à responsabilidade de uma só pessoa, mas, ao grupo.

Outra crítica do autor, refere-se à exigência de se ter uma publicação do trabalho em uma revista especializada e, ou que seja julgado pelos seus pares. Caso contrário, o conhecimento produzido não tem valor. Ele critica o que chamou de “monismo epistemológico”, de certa forma, imposto pelas carreiras das ciências exatas e que buscam sempre uma lei universal ou, que tudo se explique através da lógica. Ele segue em defesa de um método para cada disciplina.

Mezan enumera algumas diferenças. A primeira refere-se à impossibilidade de se trabalhar experimentalmente com objetos abstratos (como um documento medieval). Convivem, continua Mezan, no objeto de estudo das ciências humanas, inextricavelmente conjugados, traços únicos e traços comuns ao gênero. Ou seja, para o cientista da natureza, basta uma amostra para que seja analisada e se conheça o todo. No caso acima, o cientista tem uma forma padrão de desenvolver seu estudo. Por outro lado, os cientistas da área de humanas podem, dependendo da forma com que abordam um tema ou as teorias que são capazes de formular, trazer à luz abordagens consistentes e de grande alcance.

Outra diferença, é a tendência da individualidade; Mezan afirma que grandes sínteses de pensamentos e até sistemas complexos, na maioria das vezes, surgem da cabeça de uma única pessoa. No caso das ciências humanas, trabalhando com objetos abstratos e de naturezas diversas, fica mais difícil compreender o todo através das partes, embora, em alguns ramos, o trabalho possa se desenvolver em equipe na formulação e testes das teses, a conclusão repousa, quase sempre, na compilação mental dos dados por um indivíduo.

Finalmente, Mezan assegura que o impacto de um trabalho não tem relação com o fato de ter sido pensado e trabalhado por uma pessoa ou por um grupo, mas se ele é capaz de enriquecer os conhecimentos já adquiridos, confirmando-os ou refutando-os. Afinal, todo conhecimento é coletivo; não se pode pensar um empreendimento como esse sem estar dialogando, compartilhando informações, fazendo uma pesquisa bibliográfica, entre outras formas de relacionamento e troca de informações.

Como última observação, o autor levanta o problema da gestação dos trabalhos na área das ciências humanas. Devido à complexidade do objeto, os resultados geralmente se manifestam em livros que sintetizam vários anos de trabalho.

Finalizando, Mezan conclama aos pesquisadores das ciências humanas para uma cruzada contra o preconceito. As armas são: a excelência dos trabalhos; o foco preciso na produção de um conhecimento consistente e que atendam, infelizmente, as demandas utilitaristas do presente.

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Referências Bibliográficas

MEZAN, Renato. Sobre pesquisadores e andorinhas. Folha de S. Paulo: 29/04/2007 (p. 6)

novembro 17, 2007

A Revolução

Posted in Meus textos às 6:58 pm por espacointuicao

Sinópse: Este texto foi escrito por mim para o Concurso de Crônicas e Poesia da FAPAM, com qual me classifiquei em 2º lugar. Através do texto procurei refletir sobre as “Revoluções” que supomos tê-las vivido. Questiono também o atual estado de coisas que, apesar de construído pelos homens, transcederam o seu criador e são considerados algo indiferente ao Homem, algo sagrado e, como nosso algoz, guia nossa vida. Será que o sistema tornou-se consciente?


Por Joandre Oliveira Melo

A Revolução é o ato mais puro da existência humana. É através dela que ocorre a mudança radical, em todos os sentidos: em nossa organização social, nossa forma de viver e relacionarmos com os outros. Enfim, através dela impérios são derrubados, governos e organizações políticas emergem, idéias se corporificam.

É a fantástica e vigorosa ação do Homem, determinado, levada às últimas conseqüências, dirigida pelas condições materiais de sua existência, para, de alguma forma, tomar-lhes as rédeas e por o antigo abaixo e sobre seus escombros soerguer aquilo que consideram novo e perfeito. Algo que possam se vangloriar.

A Revolução, para alguns, está revestida de uma áurea sagrada, é a realização do espírito indômito do ser humano, a materialização dos ideais, dos seus anseios e devaneios. O solapar das forças e poderes vigentes pelas novas forças e poderes que passarão a reger as ações humanas, a guiar suas vidas. Legitimam-na com a humilhação e destruição do “antigo”, do “atrasado”, daquilo que deve mudar. Regam-na com o sangue dos vencidos, alimentam-na com a carne dos que tombam pelo caminho.

A Revolução, necessária e ao mesmo tempo detestável e vil, dirigindo a humanidade para o seu fim único: O recomeço, às suas origens, a plenitude do animal “humano”. Desencadeadora de mudanças, berço do novo que se tornará velho e sucumbirá com a próxima Revolução, rompendo laços dolorosamente, ou apenas desatando alguns nós ou, às vezes, de um só golpe rompendo o “nó górdio”. Algumas vezes a solução, em outras, a causa do problema.

Não é isto que temos feito todos os anos da nossa “evolução”? Revolucionamos sempre… Mas, será que sentimo-nos livres, plenos? Hoje somos o máximo que a Revolução pôde nos transformar…

No entanto, na esteira de Rousseau, hoje somos degenerados, porque pensamos e revolucionamos. O Homem verdadeiro criado pela natureza, mãe de todos, morreu. A Revolução o matou. Será que não seríamos tão selvagens na visão de um Australopithecus (designação de ser ancestral da espécie Homo. Cf. JOHANSON, Donald C. O filho de Lucy. RJ. 1998), quanto eles os são para nós? Portanto, quem são os degenerados? Aqueles que a mãe natureza criou ou o Homem que o Homem criou?

De Revolução em Revolução, criamos consciência de nós mesmos, e a demos ao sistema; nasceu o grande Leviatã, o crocodilo das águas. Em defesa do Homem, da luta de todos contra todos, nasceu o Capitalismo; sistema que nos segrega, nos aprisiona, nos manipula como quer. Ele já existe quase por si só. E o Homem que revoluciona quase inexiste… Nada pode nos parar, entramos em rota de colisão…. O espírito humano já não consegue nem mais a sua voz, não pode mais refletir, nem sentir sua insignificante presença no universo, sua efêmera existência material.

Mas, acima de tudo, pensamos…

Revolucionamos…

novembro 16, 2007

A velha Senhora vai às compras: O desmoronamento do Bloco Socialista e a entrada da Rússia na Economia de Mercado.

Posted in Meus textos às 5:31 pm por espacointuicao


Sinópse: O texto abaixo faz uma pequena reflexão sobre o artigo do professor Ângelo Segrillo, na folha de S. Paulo. Unindo a metodologia das novas correntes historiográficas e analisando o enfoque dado pelo autor, tentei levar o leitor a reconhecer na produção individual e na formação da mentalidade , sem contudo deixar de analisar a faceta econômica que interfere, substancialmente, nas ações e no curso da História da Humanidade, a compreender a mudança de rumos da Rússia no processo Histórico mundial. O estado de coisa que hoje se instala é resultado da produção humana, contudo, os Homens não o reconhecem e vêm nele algo de transcendental, mas, a História do Homem está sendo continuamente reescrito e recontada.

Por Joandre Oliveira Melo

Vejam como os fatos históricos podem ser revistos, ao cabo dos acontecimentos. Como vimos nas aulas de História contemporânea, a queda do regime socialista na antiga União Soviética, teria sido gerado ou, pelo menos, bastante influenciado por medidas do então Líder Mikhail Gorbatchev, de abertura da economia ao famigerado capital estrangeiro. Pensando, talvez, como o idealizador do regime socialista – Vladmir Ilitch Ulianov (Lênin)(1870-1924) que ardilosamente fomentou as bases econômicas para a sustentação do regime que implantava em 1917 – abrir uma “brecha” por onde entrariam investimentos estrangeiros e, estes, revitalizariam a decadente economia socialista. No entanto, as forças capitalistas, já bastante evoluídas, e tendo passado pelas fases descritas por Marx (1818-1883) – de acumulação primitiva de capital e incremento das forças produtivas – solaparam o debilitado mercado Soviético. A derrocada foi total; a economia e a política, intimamente ligadas, renderam-se à economia de mercado e à democracia liberal. Ironicamente, os acontecimentos remontam às idéias de Marx: onde o modo de produção determina o ritmo das relações sociais; portanto, muda-se o modo de produção alteram-se as relações sociais “acima”. Porém, Marx pensava que os antagonismos do capitalismo, gerado pela intensa exploração do homem pelo homem, o levaria a ruína e, em direção ao socialismo e posteriormente ao comunismo.

Em primeira mão, acreditava-se, assim como eu, que um erro de cálculos poderia ter sido a causa da queda do regime socialista na União Soviética. Pensava-se, que o socialismo realmente não se sustentaria, como não se sustentou, por causa de sua fragilidade, por ser uma forma de se travar relações completamente impostas, ou seja, uma ditadura e, como tal, sustentava-se através da força e do enclausuramento do regime perante as forças capitalistas. Destarte, uma pequena abertura, como Lenin já havia feito antes, quase como uma sangria às avessas, recuperaria o já minado sistema econômico socialista. Isto posto, seria uma confirmação da teoria de que o capitalismo pairava superior a qualquer regime sócio-econômico-político, e revigorava a posição neo-liberal, reafirmando a máxima de Adam Smith e dos economistas políticos, de que o mercado se auto-regula.

Entretanto, a membrana, que envolvia todo o sistema Soviético, não teria sustentado a pressão e rompera-se; era algo como na biologia, a tendência de todo elemento passar do meio hipertônico para o meio hipotônico, ou seja, do meio mais concentrado para o de menor concentração. Dessa forma, era evidente um erro de cálculos, pois, somente através da manutenção dessa “membrana” o regime socialista poderia continuar existindo.

Nenhum traço, no entanto, até o momento, revelava-se como sendo consciente ou premeditado por parte dos políticos Soviéticos em relação a esta “terapia de choque”, vislumbrando uma abertura lenta, gradual, porém, contínua em busca de uma economia de mercado e de um regime liberal.

Em 1985, Mikhail Gorbatchev acena com a “Perestroika”, o novo momento. Para apoiá-lo nessa empreitada, recorre a Boris Ieltsin (1931-2007) entre outros, considerados como líderes “jovens” e dinâmicos. Em 1991, chegava-se ao fim do regime socialista e da própria União Soviética, como bloco socialista.

De acordo, com Ângelo Segrillo, em seu artigo, “Um outro lado de Ieltsin”, – baseando-se nas auto-biografias de Boris Ieltsin – para a Folha de São Paulo, de 29 de abril de 2007, afirma que: “As entrelinhas da biografia de Ieltsin deixam claro que a opção da Rússia por uma ‘terapia de choque’ foi consciente e pensada. Foi uma opção política”.

Ieltsin, continua Segrillo, com seu temperamento emblemático, acabou por imprimi-lo na política da Rússia. Por isso, afirma, ser importante a análise dos seus diários. Sucessor de Gorbatchev no posto de comando, elegendo-se, através das primeiras eleições parlamentares “livres” da união Soviética, como presidente da democrática Rússia, demonstrou-se empenhado em defender essa democracia. Embora, suas ações não deixassem transparecer com convicção esse seu lado democrata, “como quando mandou canhonear o Parlamento para resolver o impasse entre o presidente e deputados em outubro de 1993”.

Com relação à “terapia de choque”, descreve Segrillo, está claro nas “entrelinhas da biografia de Ieltsin”, que havia um desejo de uma passagem do Socialismo para o capitalismo e, como muitos afirmam, não se tratava de um erro de cálculos, mas, de uma “(…) opção consciente e pensada”. Para alguns críticos, mais ponderados, uma transição mais gradual seria mais sensata e, “(…) evitaria muitos dos traumas, distorções e injustiças ocorridos durante a gigantesca privatização feita às pressas”. Mas com seu temperamento impulsivo, Ieltsin impõe-se à sua equipe econômica a necessidade de uma mudança mais profunda e rápida para que o “sofrimento” não se prolongasse e, maquiavelicamente, daria um golpe com punho de ferro sobre a oposição que, poderia, com uma mudança mais gradual se reorganizar e, talvez, impedir a concretização da passagem do regime socialista ao regime capitalista. Nesses moldes e, analisando documentos pessoais de um presidente, combate-se a idéia de um “erro de cálculos”; a opção teria sido, portanto, política.

Ieltsin, terminou por ficar indelevelmente marcado por suas ambições, apesar de ter conseguido seu intento e, empossar, como seu sucessor, o atual presidente Vladmir Putin seu parceiro de idéias. Entretanto, não foi apenas a vida de um homem que ficou marcada, mas a da Rússia e de todo o mundo. Ao sucumbir, o regime socialista levou consigo a possibilidade de existência de um outro modo de vida a não ser o modo capitalista de consumo. Uma alternativa ao atual regime desfez-se como castelos de areia. Por esse motivo, as teorias marxistas terão de ser novamente repensadas; uma profunda revisão das idéias de Marx, se impõe à nova geração. Se nós queremos manter um regime consumista tal como está, com a destruição da natureza, dos ecossistemas, um constante desprezo ao ser humano e as seus valores e necessidades. Uma vida totalmente plástica e contraria a natureza do Homem.

Na História tudo pode ser questionado; dependendo do momento, das forças ideológicas que estão atuando e, principalmente daquele que a faz: o Homem.

Texto publicado no Jornal Diário de Pará de Minas, em 24/10/2007. Produzido por Joandre Oliveira Melo.
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Referências Bibliográficas

SEGRILLO, Ângelo. Um outro lado de Ieltsin. Artigo para Jornal: Folha de São Paulo, 29/04/2007. p. A19.

A morte do moinho do Córrego do Engenho

Posted in Meus textos às 4:59 pm por espacointuicao

Sinópse: Este artigo foi escrito por mim como manifesto à destruição do Moinho do Córrego do Engenho, ocorrido em Maio de 2007. Este moinho foi construído antes de 1897 e resistiu bravamente até maio de 2007. O artigo foi publicado na coluna Resgate Histórico, espaço de publicações sobre a História Regional de Pará de Minas e região, do Projeto Acervo “Documental Mesopotâmia Mineira”.

Por Joandre Oliveira Melo

Há muitos anos foi construído no Retiro do Bahia – hoje: Córrego do Engenho – uma de suas obras mais devotadas. Edificado pelas mãos do homem, durante anos alimentou-se do milho, o ouro do sertão. Com seus pés redondos imersos na água pura que ali jorrava. Sua boca de pedra mastigava a riqueza loira do sertão de Pará de Minas e regurgitava o áureo pó da providência que durante anos alimentou homens, mulheres, crianças e animais. Animou-os com sua assaz oferta de carboidratos em sua lida diária.

Fora criado para servir e, quanto a isto não esmorecia, com a tenacidade de um Sísifo, passavam-se os dias e anos e a mesma tarefa era-lhe imposta; mas, não reclamava, murmurava a mesma canção de seus companheiros. Eles eram muitos e por toda a Minas Gerais formavam um batalhão de titãs.

Porém, o tempo, senhor implacável, que brinca com seus filhos antes de devorá-los abateu sobre essa tenaz legião e, um a um foram caindo como moscas. Nosso personagem não ficou incólume; viu o progresso chegar, as novas invenções substituíram-lhe. Mas, ele resistiu e resistia bravamente orgulhoso, porém mudo – o progresso havia-lhe seqüestrado sua voz ou, talvez tivesse se calado de tanta tristeza. Mas ele resistia… Até que um dia, o homem, aquele que anos atrás o havia construído, sem qualquer cerimônia veio arrancar o pouco de vida que ainda restava-lhe. Cruelmente arrancaram-lhe suas entranhas; desfaleceu-se de dor… sucumbiu, enfim, à modernidade. Será seu fim? Hoje, suas entranhas jazem no pátio do Museu Histórico de Pará de Minas.

O texto em epígrafe refere-se à impiedosa destruição do moinho do Córrego do Engenho. Obra que durante décadas serviu aos nossos ancestrais e com seu movimento incansável ajudou de forma significativa no progresso de nossa região. Ironicamente, como nos apresenta com propriedade Karl Marx (1818-1883): todo o sistema construído ou implantado traz consigo (dentro de si) o germe da sua destruição. Uma obra como este moinho que tanto participou no avanço de nossa comunidade rumo ao progresso, acabou por trazer a destruição para si. Agora que poderíamos render-lhe nossas homenagens – preservando-o para que nossos filhos e futuros descendentes pudessem contemplar a memória e engenhosidade de nossos antepassados – com apenas algumas ferramentas, destruímos toda essa criação do passado.

De que valerá um moinho d’água em um local seco? Por que não preservá-lo em seu local de origem? Era o mínimo que poderíamos fazer em honra daqueles que bravamente domaram a natureza e estabeleceram aqui nossa amada cidade.

Mais algumas informações sobre esse conspícuo moinho foram publicadas anteriormente em artigos desta coluna, transcrevemos abaixo algumas notas sobre sua valiosa contribuição e certifica, sem dúvida, o seu real valor histórico para nossa comunidade.

“No Brasil dos séculos XVIII e XIX, ser proprietário de um moinho era fator de distinção social, pois muitos camponeses pobres, que não tinham condições de construir um moinho, levavam parte da sua produção de trigo ou milho para ser moída no moinho de um vizinho, que cobrava por isso.

(…)em Pará de Minas, existiu um moinho de pau-a-pique em funcionamento que, hoje, encontra-se em um estado de conservação delicado, exigindo das autoridades locais uma atenção especial no sentido de preservá-lo, para que a memória de toda uma época possa ser resgatada e conhecida: o moinho do “Córrego do Engenho”, região que, no século XIX, chamava-se “Retiro do Bahia”.

O moinho do “Córrego do Engenho” já existia em 1897, época em que a região de Pará de Minas ainda era predominantemente rural. No entanto, com base na afirmação de técnicos do IEPHA – MG de que o moinho construído todo em madeira (como o nosso) era mais comum no século XVIII, podemos lançar a hipótese de que o moinho do “Córrego do Engenho” é uma estrutura colonial dos anos 1700. Funcionou perfeitamente até o final de 2004, quando o terreno onde se localiza foi desapropriado pela Prefeitura de Pará de Minas (em 12 de novembro de 2004), segundo uma das herdeiras. Nas palavras de Maria da Graça Menezes Mourão: “Este quinhão é o que nos resta da Fazenda dos Gomes na Mata do Cego, que se converteu na Fazenda Vargem do Engenho – Fazenda do Patafufo, cujo último resquício ainda é o Córrego do Moinho do Fubá, como é chamado nas documentações do Registro de Imóveis (n. 114, fl. 123, 1963). Nossa visita registrou os últimos momentos de uma ‘reália’ tão importante, pois o moinho teima em vencer as intempéries do tempo e o descuido dos homens. Custa-nos crer que uma tradição tão rica no cotidiano das fazendas mineiras e uma relíquia da história paraense possa desaparecer!”.

Tão verdadeiro é o clamor da historiadora que o moinho teve seu valor econômico e cultural reconhecido em nível estadual em 1949, quando a sua proprietária, Maria Sebastiana Costa (d. Liúte) recebeu o 1º. PRÊMIO – FUBÁ, da 1ª. Exposição Agro-Indusrial Regional de Pará de Minas, sob a chancela da Secretaria da Agricultura do Estado, realizada de 31 de agosto a 4 de setembro de 1949. O diploma que atesta o Prêmio foi assinado pelo Padre José Viegas, Prefeito de Pará de Minas e Presidente da Comissão Organizadora Central do evento, e pelo Secretário Geral, Antero Gastão Machado. O diploma, cuja cópia nos foi cedida pela herdeira, é o reconhecimento da qualidade do fubá d’água do moinho do “Córrego do Engenho”.

Embora o moinho não esteja mais em funcionamento, a sua estrutura se encontra em condições de ser restaurada, podendo constituir um atrativo cultural para a região de Pará de Minas”

Texto publicado no Jornal Diário de Pará de Minas, na coluna Resgate Histórico do Projeto Acervo Documental “Mesopotâmia Mineira”, em 14/05/2007. Produzido por Joandre Oliveira Melo.

novembro 15, 2007

Algo estranho no Centro da Via-láctea

Posted in Astronomia, Física às 8:11 pm por espacointuicao


Hoje, lendo uma reportagem da folha de S. Paulo, intitulada “Físicos conseguem ‘despir’ buraco negro”, lembrei-me de um trecho do livro “Einstein, Gertrude Stein, Wittgenstein e Frankstein: Reinventando o universo”, de John Brockman, que li há alguns anos atrás. Através dos estudos apresentados nesta obra os famigerados Buracos Negros, propostos por Einstein, no início do Século XX, não seria, como seu nome indica, “Negros”. Embora, sua descomunal atração gravitacional provoque o decaimento de toda matéria próxima ao seu centro, ou ainda, no limiar do seu horizonte de Eventos, inclusive a luz, o que poderia nos dar uma idéia de que nada poderia fugir ao seu domínio, logo, os Buracos Negros seriam “negros”, não emitiriam qualquer tipo de radiação, conseqüentemente teriam de ser invisíveis, porém, através de novos estudos e abordagens, como a de Brockman, a entropia provocada pela fulminante atração gravitacional do núcleo comprimido desse corpo, poderia gerar energia suficiente para vencer o efeito atrativo e espalhando-se pelo espaço. Abaixo transcrevi a parte do texto onde Brockman explica a teoria dos “Buracos Brancos”.

“Quando poderosas fontes de rádio foram observadas pela primeira vez nos céus, no início da década de 1960, pensava-se que elas representassem um novo tipo de estrela. Quando foram localizadas opticamente, descobriu-se que elas muitas vezes se originavam de objetos muito brilhantes parecidos com estrelas. Entretanto, estudos posteriores mostraram que os objetos se situavam muito além do que o seu brilho fazia supor. (…) Uma vez que sua identidade precisa continou sendo um mistério, os astrônomos não sabiam ao certo se as deveriam classificar como estrelas propriamente ditas, começando a referi-las como ‘fontes de rádio quase estrelares’ [ou Quasares].
(…)Acredita-se que os quasares são galáxias normais, com algum tipo de fonte de energia no centro.(…) Em outras palavras, os quasares podem ser galáxias normais com buracos negros ativos em seu centro, consumindo rapidamente a galáxia a partir do núcleo e convertendo grande parte de sua massa em emissões de rádio e de luz.
O conceito de buraco negro foi ideado pela primeira vez em 1915, quando o astrônomo alemão Karl Schwarzchild, em seu leito de morte, esboço uma descrição matemática do que poderia acontecer se a atração gravitacional de um corpo fosse tão poderosa que o corpo continuasse a se contrair até para além da própria trama do espaço.(…) john Weeler, de Princeton, criou o termo ‘buraco negro’ e o conceito foi aceito. Os astrônomos não têm certeza ainda se os buracos negros existem, mas há um consenso cada vez mais amplo de que o universo esteja repleto deles.
Admite-se agora que os buracos negros sejam estrelas gravitacionalmente contraídas, tão densas que uma colher de sopa de sua matéria pesaria mais de um bilhão de toneladas. Originalmente acreditava-se que nada, nem mesmo a luz, poderia escapar deles. Por essa razão, os astrônomos postulavam inicialmente que os buracos negros fossem completamente invisíveis. Entretanto, (…) poderia ser detectado pelas perturbações que causaria na órbita do outro objeto.(…) O objeto, chamado Cygnus X-1, é considerado o primeiro buraco negro descoberto.
Em ‘A Hole in the Milky Way’, escrito por M. Mitchell Waldrop e publicado em junho de 1977 em Science, o autor discorre sobre a energia e o movimento que acontecem no núcleo de galáxias próximas. Ele explica que, longe de ser prisões cósmicas das quais nada escapa, os buracos negros, em certas circunstâncias, podem funcionar como prodigiosos geradores de energia.(…)
Um modelo assim também poderia explicar os longos jatos de matéria disparados por alguns quasares. Como o gás e a poeira cósmica espiralam dentro do buraco, as partículas tendem a se distribuir em uma formação discóide. Com o aumento da pressão, pode-se calcular que parte desse material será expelido do eixo do disco em imensos jatos. Isso pode explicar por que algumas poderosas emissões de rádio de galáxias distantes parecem se originar fora da galáxia propriamente dita e provir do eixo de seus discos galácticos. Se, além disso, o buraco negro estiver girando, ele provocará a oscilação dos disco, produzindo jatos espirais parecidos com os jatos d’água de um irrigador rotativo de jardim. Mais uma vez, tais espirais também têm sido observadas.
(…)Os quasares (…) são na realidade protogaláxias, mostrando como todas as galáxias eram em sua infância. Outra escola de pensamento sustenta que as galáxias se formam primeiro, depois as estrelas densas em seus centros se coalescem e contraem formando os buracos negros.(…)
Evidentemente, o interesse centrou-se no núcleo de nossa própria galáxia. Sabe-se, há alguns anos, que o núcleo da Via-láctea é um emissor de rádio. (…) Em 1977, Kenneth I. Kellerman e seus colegas do Observatório Nacional de Radioastronomia decidiram medir o tamanho da fonte de rádio. A partir das emissões registradas nessas experiências, calculou-se que a fonte de rádio se localizava em Sagitário A Oeste, provavelmente no núcleo da galáxia, e sua largura media aproximadamente só duzentas unidades astronômicas [uma unidade astronômica: mais ou menos 30 bilhões de quilômetros]. Uma vez que as observações anteriores com comprimentos de onda maiores indicaram maiores amplitudes, teorizou-se que o espalhamento das ondas durante a trajetória fez a fonte parecer maior do que era na realidade. Sugeriu-se ainda que se a fonte fosse analisada com comprimentos de onda ainda mais curtos, se encontraria um valor ainda menor para a fonte.
(…)Utilizando o telescópio infravermelho da Mauna Kea, Ian Gately, do Reino Unido, relatou a existência de um tênue halo de poeira de silicatos ao redor do centro da galáxia. Porém ele descobriu que a poeira, em vez de cobrir completamente a região, parecia distribuída em forma de anel. Isso indicava que q poeira estava submetida a algum processo que lhe dava a forma anular.(…)
Descoberta ainda mais intrigante é a de que a temperatura da poeira cósmica só atinge algumas centenas de graus Kelvin [escala ºC + 273]. Embora essa temperatura seja baixa em termos cósmicos, ela faz a poeira atingir um luminosidade várias centenas de milhões de vezes maior que a do Sol. Gatley acha que esse fenômeno pode se explicar por um aglomerado compacto de estrelas jovens e quentes, mas afirma que seriam necessários cerca de mil sóis jovens empacotados num só volume de aproximadamente um ano-luz de largura para corroborar os dados observados.(…)
Em ‘A Hole in the Milky Way, Waldrop cita Robert L. Brown, do Observatório nacional de Radioastronomia, que obteve um ‘retrato’ de ondas de rádio, mais nítido, do objeto que ocupa o centro de nossa galáxia, utilizando o recém-construído ‘Very Large Array’ (Disposição em Grande Escala) de radiotelescópios no Novo México. (…) Mostrou uma nuvem de gás espiralada, de três anos-luz de largura, no núcleo da galáxia, contendo um ponto muito pequeno e excepcionalmente luminoso na parte mais central. O objeto encontrava-se exatamente no meio do anel descoberto por Gatley.
De acordo com Brown, o gás no modelo espiralado parece ser ejetado a partir de alguma fonte central a uma velocidade de cerca de 350 quilômetros por segundo. Um dos braços dos jatos em espiral parece aproximar-se da Terra e o outro parece se afastar. Isso fez Brown concluir que fonte emissora do par de jatos opostos estava oscilando em ciclos de cerca de 2300 anos. Observa-se também que a fonte varia diariamente de intensidade, e uma vez que não se conhece nenhum processo físico que se mova mais rápido que a luz, essa capacidade de variação diária indica que a fonte não pode ser mais larga que um dia-luz ou não muito maior que o sistema solar. Dado que só uma poderosa força gravitacional poderia explicar a existência dos jatos espiralados e que a fonte da força gravitacional é relativamente pequena, Brown conclui que o objeto central deve ter sofrido uma contração gravitacional – em outras palavras, deve ser um buraco negro.
Pesquisa posteriores indicaram que o objeto no centro é a fonte mais ‘brilhante’ de raios gama em toda a galáxia. Richard Lingenfelter, da Universidade da Califórnia em San Diego, e Reven Ramaty, do Centro Goddard de Vôos Espaciais da NASA, acreditam que tais emissões também podem indicar a presença de um buraco negro, pois calculam que, se algum outro fenômeno provocasse a radiação, produziria também outros tipos de emissão.(…)
Muitos pesquisadores pensam agora que o objeto seja um buraco negro, mas alguns ainda têm dúvidas. Num artigo publicado na edição de fevereiro de 1983 de ‘Nature’, C. H. Townes, da universidade da Califórnia em Berkeley, e colegas argumentam que para uma fonte única carregar eletricamente os átomos tanto das nuvens mais próximas como das mais distantes no grau observado a luminosidade do objeto seria, no mínimo, superior à que é agora observada. Eles concluem que algumas observações sugerem a presença de um buraco negro, porém outras estão em desacordo com as teorias-padrão; em conseqüência, a questão de a fonte ser ou não um buraco negro deve continuar aberta. Eles concordam entretanto que ‘a atividade associada a buracos negros pode claramente variar com o tempo; pode ter sido predominante nessa região do universo no passado e agora estar quiescente. Também o comportamento de um buraco negro pode ser muito mais complexo do que algumas teorias admitem, e em face dessas inúmeras complexidades não temos experiência que nos ajude a compreender o que podemos esperar’”. (pp. 47-52)

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Referências Bibliográficas

BROCKMAN, John. Parte I: O UNIVERSO COSMOLÓGICO – Algo estranho no centro da Via-láctea. In.: Einstein, Gertrude Stein, Wittgenstein e Frankstein: Reiventando o universo. Trad. Valter Ponte. São Paulo:Companhia das Letras, 1988. pp. 47-52.

novembro 14, 2007

Imagine que somos felizes…

Posted in Meus textos às 6:16 pm por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo

Ao sucumbir, o sistema socialista levou consigo a possibilidade de existência de um outro modo de vida alternativo ao capitalismo. Por esse motivo, as teorias marxistas terão de ser novamente repensadas (uma profunda revisão das idéias de Marx se impõe à nova geração). Será que nós realmente queremos manter um regime consumista tal como está, com a destruição da natureza, dos ecossistemas, e um constante desprezo pelo ser humano, seus valores e necessidades? Uma vida totalmente plástica e contrária à natureza do Homem? Ou queremos mudar; fazer a Utopia acontecer?

Segundo Jean-Jacques Rousseau, a mais destruidora obra do Homem, a materialização mais vil de suas iniqüidades, foi a propriedade privada. Felizes seríamos, afirma o filósofo francês, se alguém cortasse a garganta do primeiro homem que cercou um pedaço de terra e apresentou-a arrogantemente ao mundo como sua propriedade, e fizesse jorrar seu sangue sobre ela, pois este pedaço de terra seria posteriormente a destruição do Homem. Essa terra seria fertilizada com o sangue de outros homens, para o regozijo de uma pequena prole: assim foi construída a nossa história.

Na esteira de Rousseau, o alemão Karl Marx – o “Dom Quixote” da nossa era – alimentou-nos novamente com a idéia da Irmandade de Homens, fez renascer em nós aquilo que a Revolução Francesa havia aniquilado: o desejo de compartilhar, a vontade de não esperar do céu o nosso sustento, a espiritualidade criadora humana, nossa mais profunda aptidão para o pensamento autônomo, utilizando-se da “Razão”, e o regozijar de nossos desejos enquanto seres humanos; poder desfrutar da nossa natureza, que é simples e material – “subterrânea e efêmera”, como assinala Nietzsche – porém, completa e combativa. Pascal compartilha essa idéia quando aponta a nobreza da nossa natureza humana; mesmo submetidos aos caprichos da natureza e mesmo não passando de meros “objetos” das leis do Universo, ainda assim seríamos nobres, pois sabemos que morremos, mas o universo não sabe que nos mata.

Por fim, ressoando em meus ouvidos está a letra daquela que, em minha opinião, é uma das mais belas canções modernas: “Imagine”, de John Lenon. “Imagine” é um lamento da modernidade, que esqueceu a sua culpa e destruiu tudo o que era natural, fundado pela Natureza para ser o nosso Éden, onde contemplaríamos verdadeiramente nosso ser, não através da luz refletida na pedra, como Platão conta na sua alegoria da caverna, mas diretamente da fonte natural.

A canção começa exortando-nos a imaginar uma nova sociedade, uma sociedade de Homens plenos que não precisam de heróis ou figuras carismáticas, nem líderes ou pastores, nem de castigos ou prêmios para trilhar o caminho da felicidade. Não precisamos da imposição do CERTO ou ERRADO. Assim começa a minha análise da canção: bom seria se sobre nós existisse apenas o céu, o universo, porque o Éden seria aqui, não precisaríamos ir buscá-lo – morrendo ou matando. Abaixo de nós apenas a terra, mãe fecunda que nos sustenta, a todos, homens, animais e a todos os seres que buscam a sua proteção; nada de inferno, apenas a terra. Imaginemos agora uma civilização apenas, única, povoando um maravilhoso planeta, onde não há divisões, países, segregações. Que não exista a classificação por cor, por raça – isso já nos foi demonstrado: a única raça que existe é a raça Humana. Geneticamente, nas profundezas do nosso corpo, somos apenas UM (Uma só carne; viemos do mesmo útero “africano”): Homo sapiens sapiens, sejamos brancos, mulatos, negros ou morenos, nem mais nem menos. Sem a propriedade privada que sustenta as ideologias, move as paixões, alimenta os apetites e acirra nossa vaidade, não haveremos de matar, não teremos por que morrer. Enfim, estou curioso se podemos também substituir a religião – que não exista a figura de um só Deus (Nietzsche nos acusa de tê-lo matado, e não será mesmo?) – por uma irmandade, uma Irmandade de Homens – a brotherhood of men.

Que não esperemos a vinda de nenhum messias, para sermos irmãos, felizes, completos em nossa natureza. Porque os homens podem traçar o seu destino.

Abaixo a letra da música Imagine de John Lenon, inspiração deste texto. Os trechos em destaque são os momentos utilizados na análise:
Imagine there’s no heaven [Imagine que não haja “Céu” (em oposição a Inferno)];
It’s easy if you try [é fácil se você tentar];
No hell below us
[que não haja Inferno abaixo de nós];
Above us only sky
[Acima de nós, apenas o céu];
Imagine all the people [Imagine todos os povos];
Living for today [vivendo o hoje, para hoje];
Imagine there’s no countries
[Imagine que não haja países];
It isn’t hard to do [não é difícil imaginar];
Nothing to kill or die for [Nada por que matar ou por que morrer];
No religion too [Que também não haja religião];
Imagine all the people [Imagine todos os povos];
living their life in peace
[vivendo sua vida em paz];
IMAGINE NO POSSESSIONS
[Imagine que não haja posses/possessões – leia-se propriedade];
I wonder if you can [Interrogo-me se você pode];
No need for greed or hunger [Que não haja necessidade de ganância/gula ou fome];
A brotherhood of man
[Uma Irmandade do Homem/de Homens];
Imagine all the people [Imagine todos os povos];
Sharing all the world
[Dividindo/compartilhando todo o mundo];
You may say I’m a dreamer [Você pode dizer que sou um sonhador];
But I’m not the only one [Mas não sou o único];
I hope some day you’ll join us [Espero que um dia você se junte a nós];
And the world will be as one [E o mundo será um só/como um só].

John Lenon.
Artigo publicado no Jornal Diário de Pará de Minas em 18/06/2007. Produzido por Joandre Oliveira Melo.

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