janeiro 27, 2008

Sob o signo da crise…

Posted in Meus textos às 11:24 pm por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo

Novamente o famigerado sistema econômico mundial apresenta sinais anômalos. Na iminência de uma crise mundial, negras núvens estão se formando nos céus, prenuncio de que tempos difíceis estão por vir.

As previstas crises cíclicas que acometem o sistema capitalista rondam, atualmente, todo o sistema econômico mundial. Agora, contamos com a globalização que privatiza lucros e socializa prejuízos.

No início do século XX, o atual sistema, passou por uma de suas maiores crises. Os terríveis desdobramentos dessa crise foram sentidos por todo o globo. O excesso de produção – irônico, pois, com tanta produção, demonstrando toda a potencialidade das forças produtivas mundiais que estavam em franca expansão – o ressurgimento da Europa, após a Primeira Grande Guerra e o aquecimento gradual dos mercados. Esse foi o cenário onde despontoram as teorias de John Maynard Keynes (1883-1946).

Para Keynes, as crises eram inerentes ao sistema ao sistema: a dinâmica do capitalismo levava sempre a uma superprodução de bens. Ocorre que, a demanda pelos produtos distorcia ao longo do tempo, ou seja, a crise era uma deformação da “demanda efetiva”. Essa “demanda efetiva” era o consumo, a capacidade, somada, de todas as nossas efetivas demandas. Em outras palavras: o consumo efetivado. Segundo Keynes, toda a riqueza produzida é, de alguma forma, distribuída em forma de salários e rendimentos. Com os salários e os rendimentos os empregados e empresários utilizam para comprar o que necessitam. Porém, essa renda não retornam totalmente ao sistema produtivo, ficando, assim uma parte, retida no mercado financeiro a procura de rendimentos mais lucrativos ou apenas guardadas para o caso de uma necessidade. Na iminência de uma crise as pessoas retêm suas rendas reduzindo seu consumo e, aplicando seu dinheiro em uma poupança ou no mercado de ações, etc. Essa propensão a poupança reduziria o consumo consequêntemente levando a um recrudescimento da crise. Como solução Keynes sugere que nessas circunstâncias, de crises, os governos entrem gastando na tentativa de reaquecer o processo de consumo, suavizando os efeitos da demanda retraída. É o que hoje conhecemos como política de “Stop’n Go”.

O que vemos hoje? segundo o artigo do preclaro jornalista da Folha de S. Paulo, senhor Clóvis Rossi, a recomendação dos órgãos monetários internacionais, para amenizar os efeitos da atual crise que ameaça assolar o mundo inteiro com efeitos devastadores, – crise originada principalmente pela negligência dos capitalistas norte-americanos convencidos do espírito capitalista, na sua busca desenfreada por lucros cada vez maiores – é para os governos tomarem as rédeas das suas economias e assumirem para si a função de incentivar e apoiar a atitude consumista.

Para que se mantenha a dinâmica do sistema efetivando as ações dos governos, de acordo com o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, é para aqueles países que tenham uma “margem de manobra” que as usem para alavancar a economia mundial da crise que forma.

Um passo clássico, seria a redução das taxas de juros, isso incentivaria o consumo desestimulando a poupança, na tentativa de redirecionar todo esse capital para o setor produtivo.

É evidente que as teorias econômicas encabeçadas por Adam Smith, David Ricardo e os teóricos do liberalismo do século XVIII, estão sem fôlego agora. A mão invisível, proposta por Adam Smith, parece, no momento, mais invisível do que nunca, é quase um espectro. A teoria do laissez-faire precisará, de uma “mãozinha”, não tão invisível, dos governos. Ou seja, após a crise, que foi causada pelos norte-americanos, o sistema não se equilibrará naturalmente, ou se assim o fizer, custará a destruição de uma enorme quantidade de economias pelo mundo afora. E os pobres serão os mais atingidos por essa devastação.

É público e notório que as populações sob as economias ricas têm uma propensão maior à poupança, pois, em geral, ganham muito mais do que aquelas que vivem sob as economias pobres. É também notável que as economias pobres, “alimentam” as ricas desde a antigüidade, pois para uma nação ganhar a outra perde. Em contrapartida, são mediocrimente beneficiadas pelo sistema que hoje é global. Como exemplos podemos citar a colonização da América, principalmente a América Latina e a massiva exploração da África.

O sistema capitalista sofre de um mal crônico, ele traz consigo os germes da sua destruição. Com a ajuda da extraordinária e exuberante natureza, da qual exploramos recursos para alimentarmos esse atual sistema e dos processos racionais teorizados pelos economistas tratamos o mal que o aflige. Porém, não eliminamos o germe que continua latente nas suas entranhas. Sabemos que, ao confluírem as condições necessárias, os germes manifestarão novamente e uma nova crise aflorará, o que não sabemos é se o tratamentoserá suficiente para reerguê-lo.

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Referências

Artigo de Clóvis Rossi. Desligar o piloto automático. Publicado na Folha de S. Paulo, coluna Opinião, pág. A2. em 27/01/2008.

O Todo e a Parte

Posted in Filosofia, Poemas Barroco às 12:50 am por espacointuicao


No poema abaixo, escrito no século XVII, Gregório de Matos – considerado um marco do Barroco no Brasil – discorre sobre dois conceitos da linguagem: O Todo e a Parte.

Sua análise é aguçada quando encontra um braço, supostamente de uma imagem do Menino Jesus. A percepção do braço leva-o a mentalizar toda a imagem do Menino Jesus. Logo por dedução: O Todo está em toda Parte… é uma pérola do silogismo.

Por Gregório de Matos(*)


O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,

Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,

Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,

Nos disse as partes todas deste todo.


(*) Gregório de Matos e Guerra nascido em Salvador ou Recifie, provavelmente em abril de 1623, alcunha Boca do Inferno, foi advogado e poeta do período colonial. É considerado o maior poeta do Barroco brasileiro. (Dados obtidos do Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_de_Matos. 26/01/2008)

(**) Imagem obtida em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Greg%C3%B3rio_de_Matos.jpg. Disponível em: 26/01/2008.

janeiro 12, 2008

O enfrentamento dos mundos

Posted in História do Brasil às 11:37 pm por espacointuicao


Hoje iniciando a leitura da obra: “O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil” de Darcy Ribeiro. Deparei-me com uma passagem que não poderia deixar de postar em meu blog.No início do livro, em seu capítulo I, Ribeiro discorre sobre o apossamento das terras do Brasil dos seus verdadeiros donos: os indígenas que aqui viviam. Ele narra o choque das culturas, o primeiro deslumbramento dos dois povos separados pelo oceano e depois o embate dos povos indígenas contra a sua submissão.

No enfrentamento dos mundos, a primeira visão dos “Invasores” era que haviam aportado no éden. As maravilhas que vislumbravam, os corpos perfeitos e plenamente adaptados para a vida selvagem, a atração irresistível pelas mulheres símbolos da perfeição – a moura perfeita – , corpos adornados por plumas coloridas. E eles, navegantes, barbudos, hirsutos, fedentos, infestado de chagas, atacados que eram pelo escorbutos, corpos dementes.

Pouco mais tarde a visão idílica se dissipa, aqueles homens e mulheres, descendentes de Adão e Eva, de vida livre, que não conheciam o pecado, tinham um “(…) defeito capital: eram vadios, vivendo uma vida inútil e sem prestança. Que é que produziam? Nada. Que é que amealhavam? Nada. Viviam suas fúteis vidas fartas, como se neste mundo só lhes coubesse viver.”(RIBEIRO, 2006: 41).

Aos olhos desse povo selvagem que preferia mais dar do que receber, amantes da liberdade, viventes do presente, aqueles homens vindos do além mar pareciam aflitos demais, atiravam-se aos afazeres como se tudo fosse terminar no dia seguinte. Avançavam sobre as caças, as florestas como se fossem acabar, sobre os peixes como se os rios e o mar fossem secar. Matando e acumulando, mais do que podiam comer ou usar, tudo isso era demais para a compreensão dos povos selvagens que aqui viviam.

Ribeiro passa então a citar Léry em um diálogo de um Tupinambá com um estrangeiro:

Os nossos tupinambás muito admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar os seus arabutan. Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, maírs e pêros [franceses e portugueses] buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.

Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah! Retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? – sim, disse eu, morre como os outros.

Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para os seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados (Léry apud Ribeiro, 2006: 41-2).

(*) Imagem de Darcy Ribeiro, site da Academia Brasileira de Letras. Disponível em http://www.academia.org.br/abl/media/darcy_ribeiro.jpg. Em 12/01/2008
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Referências Bibliográficas

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. (pp. 11-42).