janeiro 31, 2009

Comentário a um amigo

Posted in Comentários Blogs amigos às 1:38 am por espacointuicao

Flávio
Não poderia deixar de comentar o seu post. O senhor CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO( Frei Betto) é um cara excepcional. É um em um milhão. Gostaria em algum momento de conversar com ele… Adepto da teologia da libertação – da qual tenho grande admiração, capaz de tirar a Igreja Católica e sua imutável hierarquia do seu sono dogmático e confrontá-los com a realidade, realidade do povo de Deus que tem fome: de pão, de justiça – ele é um homem que acima de tudo sabe que os homens precisam e escreve cada palavra no seu devido momento… É sempre um prazer ler os textos que ele escreve…

Quanto a alusão a sócrates, hoje andando pelo Shopping Del Rey em Belo Horizonte, onde fui passear com a minha família, desfrutar um pouco das maravilhas capitalistas, observava algo parecido. Nas lojas de brinquedos onde avolumavam-se pessoas e crianças todas bem vestidas, alimentadas e “felizes”, carregando enormes sacolas com parafernálias eletrônicas que provavelmente não durarão mais do que uma semana e, logo servirão para aumentar todo aquele lixo que levará séculos para ser degradado pelo ambiente e ser reintegrado à terra. Era uma visão paradisíaca, tudo muito perfeito, tudo muito bom, o mundo realmente é tudo de bom. Porém, ao sair do shopping, a apenas alguns metros deparei-me com uma família maltrapilha, esquálida (para não dizer faminta) e “triste”, vagando sem destino. Então disse aos meus filhos, que também vislumbravam aquela cena: Acabamos de sair do paraíso e caímos no limbo, só que esse limbo não é a morada do demônio, ele não fez nada para criá-lo; os homens o criaram, eu e outros homens… Fomos colocados sob um sistema cruel, porém, nada fazemos para mudá-lo.

Não pude deixar de pensar, se eu estava ali, ao lado de Beatriz – no paraíso Dantesco – alguém deveria estar ocupando o meu lugar no limbo…

Joandre

16 de Dezembro de 2007 16:19

janeiro 26, 2009

Reminiscências de Karl Marx

Posted in Textos Livros às 11:21 pm por espacointuicao

Certa vez, conforme consta em alguns escritos, Karl Marx (1818-1883) teria pronunciado sobre o trabalho de toda a sua vida – Marx escrevera longa e concisamente sobre o capital: sua dinâmica e seus efeitos sobre a vida dos Homens -, “nunca se falou sobre o capital, tendo tanta falta dele”.

A despeito da afirmação de Marx, hoje, seu trabalho vale milhões. Milhões do “vil metal”, denominação dele acerca do dinheiro. Embora Marx tenha escrito sua obra sob extrema miséria e penúria, muitos anos após a publicação de seus trabalhos, milhares de estudiosos, ganharam a vida ou construíram seus sistemas filosóficos, debruçando-se sobre seus escritos.

Talvez o último dos filósofos “idealizadores” de sistemas, Marx, apesar de ter produzido, uma obra fenomenal, levou uma vida errante, como um Dom Quixote, lutando contra moinhos de vento.

Os infortúnios de uma vida paupérrima dilaceraram sua família; porém, não esmoreceram seu ímpeto em legar à posteridade uma vasta e rica obra.

Marx casou-se com Jenny Von Westphalen, filha de um barão Prussiano, em junho de 1843. (Mais detalhes siga os links dos nomes). Sabe-se que os dois se amavam desde muito jovens. A sra. Marx acompanhou e apoiou todas as terríveis privações que o marido sofrera, até a sua morte em Londres em dezembro de 1881. Após morte de sua esposa, Marx, entrou em decadência total – física e moralmente – e após a morte súbita de uma de suas filhas não mais se recuperou, falecendo a 18 de março de 1883.

Abaixo, gostaria de compartilhar uma carta escrita pela sra. Marx ao sr. Joseph Weydemeyer, amigo da família. Os trechos demonstram as atribulações de uma vida de privações. O excerto foi extraído da obra: “O Conceito Marxista do Homem”, escrito por Erich Fromm (ver bibliografia).

* * * * *

De Jenny Marx a Joseph weydemeyer

Londres, 20 de maio de 1850

Caro Herr Weydemeyer:

Em breve fará um ano que recebi hospitalidade tão amistosa e cordial de si [sic] e de sua querida esposa, pois me senti tão confortavelmente à vontade em sua casa. Todo esse tempo nem dei sinal de vida: fiquei em silêncio quando sua esposa escreveu-me uma carta tão amiga e nem rompi o silêncio quando recebemos a notícia do nascimento de seu filho. Meu silêncio tem-me afligido muitas vezes, mas a maior parte do tempo eu não podia escrever e mesmo hoje acho isso difícil, bem difícil.

As circunstâncias, contudo, obrigam-me a pegar da pena. Peço-lhe que nos mande o mais depressa possível qualquer dinheiro que tenha sido ou venha a ser recebido da Revue. Certamente ninguém pode censurar-nos por jamais termos feito muito caso dos sacrifícios que vimos fazendo e suportando há anos, o público nunca ou quase nunca foi informado de nossa situação; meu marido é muito sensível nessas questões e preferiria sacrificar seu último recurso a apelar para a mendicância democrática como fazem os “grandes homens” reconhecidos oficialmente. Todavia, ele poderia ter contado com apoio ativo e enérgico dos amigos à Revue dele, particularmente dos de Colônia. Poderia ter contado com esse apoio antes de mais nada por parte dos que sabiam de seus sacrifícios pela Rheinische Zeitung. Em vez disso, porém, o negócio foi completamente arruinado por administração negligente e desorganizada, e não é possível dizer o que foi pior, se os atrasos dos livreiros, dos gerentes da empresa, dos conhecidos de Colônia ou a atitude dos democratas em geral.

Aqui, meu marido está quase esmagado pelas preocupações mesquinhas da vida de forma tão revoltante que tem precisado de toda sua energia, calma, sentimento nítido e calmo de dignidade para conservar-se nessa pugna de cada dia e de cada hora. Você conhece, caro Herr Weydemeyer, os sacrifícios feitos por meu marido pelo jornal. Inverteu milhares em dinheiro, assumiu os encargos de proprietário, induzido por valiosos democratas que do contrário teriam de responder pessoalmente pelas dívidas, numa época em que eram escassas as perspectivas de sucesso. Para salvar a honra política do jornal e a honra cívica de seus conhecidos de Colônia, ele ficou com toda a responsabilidade; sacrificou a tipografia, sacrificou todos os seus rendimento, e antes de sair chegou até a tomar emprestados 300 táleres para pagar o aluguel das instalações recém-alugadas e os notáveis salários dos redatores, etc. E ele teve que ser enxotado à força. Você sabe que não guardamos nada para nós. Fui a Francoforte para empenhar minha prataria – a última coisa que restava – e mandei vender minha mobília em Colônia porque estava em risco de ter minha roupa de cama e mesa e tudo o mais seqüestrados. Ao começar o infeliz período de contra-revolução, meu marido foi para Paris e segui-o com minhas três filhas. Mal havíamo-nos instalado em Paris quando ele foi expulso, e até eu e minhas filhas tivemos negada permissão para continuarmos residindo ali. Acompanhei-o para além-mar. Um mês depois nasceu nosso quarto filho. É preciso conhecer Londres e a situação daqui para entender o que é ter três crianças e dar à luz uma quarta. Só de aluguel tínhamos de pagar 42 táleres por mês. Conseguimos fazer face a isso com dinheiro que recebíamos, mas nossos parcos recursos estavam esgotados quando a Revue foi publicada. Contrariando o acordo, não fomos pagos, e mais tarde somente em pequenas somas de modo que nossa situação aqui era quase alarmante.

Descreverei para você apenas um dia daquela vida, exatamente como se passou, e verá que poucos imigrantes, talvez, tenham sofrido coisa assim. Como as amas aqui são muito caras, resolvi alimentar meu bebe pessoalmente, apesar de contínuas dores terríveis no seio e nas costas. Mas o pobre anjinho mamava tanta preocupação e ansiedade recalcada que estava sempre mal e sofria horrivelmente dia e noite. Desde que veio ao mundo ainda não dormiu uma única noite, no máximo duas ou três horas e isso raramente. Recentemente tem tido violentas convulsões também, e tem estado sempre entre a vida e a morte. Devido ao sofrimento, ele mamava com tanta força que meu seio ficou esfolado e a pele rachou, e muitas vezes o sangue entrava por sua boquinha trêmula. Eu estava um dia sentada assim com ele quando a zeladora de nossa casa apareceu. Tínhamos pago 250 táleres a ela durante o inverno combinado de dar o dinheiro no futuro não a ela mas ao senhorio, que tinha um mandato judicial contra ela. Ela negou o acordo e exigiu cinco libras que ainda lhe devíamos. Como não tínhamos o dinheiro no momento (a carta de Naut só chegou mais tarde), vieram dois meirinhos e seqüestraram todas as minhas escassas posses – roupas de linho, camas, roupas -, tudo, até o berço de meu pobre filhinho e os melhores brinquedos das minhas filhas, que ficaram chorando amargamente. Eles ameaçaram de levar tudo dentro de duas horas. Eu teria então que ficar no chão nu com minhas filhas enregeladas e meu peito doente. Nosso amigo Schramm foi correndo à cidade para buscar ajuda para nós. Entrou em uma carruagem, de aluguel, mas os cavalos dispararam ele pulou fora e foi trazido sangrando de volta para a casa, onde eu estava chorando com minhas pobres crianças tiritando.

Tivemos que deixar a casa no dia seguinte. Estava frio, chuvoso e nublado. Meu marido procurou acomodações para nós. Quando mencionava as quatro crianças, ninguém nos queria aceitar. Finalmente, um amigo auxiliou-nos, pagamos nosso aluguel e vendi às pressas todas as camas para pagar o farmacêutico, o padeiro, o açougueiro e o leiteiro que, à vista da penhora, de repente assediaram-me com suas contas. As camas que vendêramos foram tiradas e colocadas em um carrinho. O que estava acontecendo? já passava bem do pôr do sol; estávamos transgredindo a lei inglesa. O senhorio veio correndo para nós com dois policiais, sustentando que bem poderia haver alguns de seus pertences entre as coisas e que queríamos ir para o estrangeiro. Em menos de cinco minutos, havia duzentas ou trezentas pessoas paradas em trono de nossa porta – toda a turba de Chelsea. As camas foram trazidas de volta novamente – não poderiam ser entregues ao comprador antes do nascer do sol, no dia seguinte. Depois de termos vendido todos os nossos bens ficamos em condições de pagar tudo o que devíamos até o último ceitil. Fui com minhas queridinhas para os dois pequenos quartos que agora ocupamos no Hotel Alemão, nº 1, Rua Leicester, Preça Leicester. Ali, por £ 5 semanais. receberam-nos benevolamente.

Perdoe-me, caro amigo, por ter sido tão extensa e verbosa para descrever um único dia de nossa vida aqui. É irrefletido, sei disso, mas meu coração está querendo estourar esta noite, e preciso pelo menos uma vez desabafá-lo com meu mais antigo, melhor e mais sincero amigo. Não pense que essas misérias me abateram: sei muito bem que nossa luta não é isolada e que eu em particular, sou um dos escolhidos, felizes, favoritos, pois meu querido marido, o esteio de minha vida, ainda está a meu lado. O que realmente tortura minha própria alma e faz meu coração sangrar é ter de sofrer tanto por ninharias assim, que tão pouco pudesse ter sido feito para auxiliá-lo, e que ele que tão pouco pudesse ter sido feito para auxiliá-lo, e que ele que tão espontânea e alegremente ajudou a tantos outros, ficasse assim desamparado. Mas não creia, caro Herr Weydemeyer, que façamos exigência a quem quer que seja. A única coisa que meu marido podria ter pedido daqueles a quem deu suas idéias, seu estímulo e seu apoio seria mostrar mais entusiasmo no negócio e mais ajuda para a Revue. Orgulho-me e ouso fazer tal afirmação. Esse pouco lhe era devido. Não creio que fosse injusto para ninguém. É isso que me entristece. Mas meu marido é de opinão diferente. Nunca, nem mesmo nos momentos mais medonhos, ele perdeu a confiança no futuro nem mesmo seu humor jovial, e ficou satisfeito ao ver-me aninhada e nossas quatro amadas crianças aninhando-se junto da mãe querida. Ele não sabe, caro Herr Weydemeyer, que eu lhe escrevi com tanta minúcia sobre nossa situação; por isso, peço-lhe que não mencione estas linhas. Tudo que ele sabe é que lhe pedi, em nome dele, que apresse o mais possível o recolhimento e remessa de nosso dinheiro.

Adeus, caro amigo. Dê a sua esposa minhas lembranças mais carinhosas e beije seu anjinho por esta mãe que derramou muitas lágrimas pelo próprio bebe. Nossas três filhas mais velhas estão bonitas, sadias, bem dispostas e boas, e nosso rechonchudo garotinho cheio de bom-humor e das idéias mais gozadas. O pequeno diabete canta o dia inteiro com um sentimento espantoso numa voz trovejante. A casa sacode quando ele anuncia numa voz temível as palavras da Marseillaise de Freiligrath:

Vem, junho, e traze-nos nobres façanhas!
A feitos de fama nosso coração aspira.

Talvez seja o destino histórico daquele mês, como de seus predecessores, de inaugurar a luta gigantesca em que todos novamente apertaremos as mãos. Adeus!

(*) Impressa no Die Neue Zeit. vol.2, 1906-7. Traduzida do alemão, segundo o texto do jornal comparado com um fotocópia do manuscrit0.

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Referências Bibliográficas:

FROMM, Erich. De Jenny Marx a Joseph Weydemeyer. In.: Conceito marxista do homem. Trad. Octávio Alves Velho, 6ª ed. Zahar Editores, Rio de Janeiro: 1975 pp. 207-211.

(*) Foto de Jenny Von Westphalia, disponível na Wikipédia.

janeiro 21, 2009

À minha mestra

Posted in Meus textos; Homenagem às 11:30 pm por espacointuicao

À minha mestra, Maria Guilhermina Duarte, que durante o ano de 1986, nas aulas de literatura, incutiu em minha mente a grande dúvida do eterno movimento.

Como uma fada, com seu suave toque, abriu a caixa de Pandora e despertou os demônios que habitaram minh’alma e trouxeram à tona o desejo da dúvida e em suas peraltices trouxeram-me o conhecimento das artimanhas dos discursos. Com a luz do seu conhecimento aplainou o caminho indicando-me a direção para a busca da lendária pedra filosofal.

Confesso que a proposta de Heráclito, além de impor-me um grande desafio para compreender o que é e no momento seguinte não é mais; a cada instante, a cada batida do coração que já não era mais meu e que no instante anterior o era. Esse eterno devir dilacerou a minha visão da eternidade. Iniciou-me, em seguida, no grande problema do conhecimento do todo e da parte quão sutil estava exposto no poema de Gregório de Matos.

Como sei que és amante da música, não pude deixar de lembrar-me de ti quando lia a pequena passagem abaixo no livro de Marcel Proust: “No caminho de Swann”.

Tentarei defenir em poucas palavras o momento da obra de Proust onde encontra-se a passagem em epígrafe: Swann sofre perdidamente por Odette, mulher que atiçou-lhe o mais nobre dos sentimentos que um homem pode ter por uma mulher. Com aquela malícia, natural de todas as mulheres, que fazem os homens se jogarem aos seus pés, seduzira o nobre Swann. Resgatara-o da letargia na qual viviam os solterões ricos da França do final do século XIX. Seu amor era como uma fogueira que aquecia-lhe a alma, até o momento em que Odette, sua grande paixão, despreza-o e passa a cortejar outros senhores. Mesmo diante dessa decepção Swann agitava-se com tudo que pudesse lembrar Odette. Era ela, agora, a senhora do seu destino. Como Beatriz para Dante, Odette o era para Swann. Longe de Odette vivia no limbo, próximo de Odette ou de algo que pudesse lembrá-la, estava no Paraíso.

Pois assim foi. Em uma festa da alta aristocracia Parisiense, onde Odette nunca poderia estar, já desliludido com o encontro. Desliludido, por ninguém saber ou se interessar pelo seu romance. Súbito, irrompeu-lhe uma grande alegria ao ouvir acordes de violinos em uma sonata. Como aqueles dos felizes encontros com Odette na casa dos Vinteuil. Doces reminiscências, há muito sufocadas, trazem-no um êxtase incomparável, assim Proust comovido pela situação de Swann, escreve:

Há no violino – quando não se vê o instrumento e não se pode ligar o que se ouve à sua imagem, coisa que modifica a sonoridade – acentos que lhe são tão comuns com certas vozes de contralto, que se tem a ilusão de que uma cantora veio ajuntar-se ao concerto. Erguemos os olhos e só vemos as caixas dos violinos, preciosas como estojos chineses, mas, por um momento, ainda nos iludimos com o enganoso apelo da sereia: às vezes também se julga ouvir um gênio cativo que se debate no fundo da sábia caixa, enfeitiçada e fremente, como um diabo numa pia d’água benta; ou então é no ar que o sentimos, como um ser sobrenatural e puro que passasse desenrolando a sua invisível mensagem.(PROUST, Marcel. 1982. p. 202)

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Referências bibliográficas

PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Trad. Mário Quintana. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
(*) A imagem acima, Homens em seu atelier fabricando violinos. disponível em http://www.orkestkidsite.nl/kidsitejpg/stradivarius.jpg, 21/01/2009 23:59

janeiro 7, 2009

Curso de Pós-Graduação – Inscrições abertas

Posted in Divulgação às 9:45 pm por espacointuicao



janeiro 3, 2009

TALVEZ…

Posted in Meus textos às 11:18 pm por espacointuicao


Joandre Oliveira Melo

Talvez, quando eu me aposentar eu realmente me torne um homem ou, pelo menos me aproxime do que seja um homem; do que ele pode ser, fazer e sentir.
Por enquanto, sou apenas um pedaço de carne que anda, come, bebe, veste, faz sexo, ama, descansa, pensa. Enfim, apenas um pedaço de carne que vive para o sistema e que se consome em nome dele.

Talvez, eu não passe de gado; guiado pelas veredas que me levam a lugar nenhum. Pelo caminho, há apenas um pouco de palha para que eu possa comer e um pouco de água para beber.
Vejo outros como eu. porém gordos; movem-se freneticamente, comem grama fresca; muita, muita grama e vegetais que eu nem conheço e bebem águas claras que deságuam de enormes e refrescantes cascastas. Olho para trás e vejo outros como eu ou, talvez, até em piores condições; corpos chupados, andar trôpego, talvez mais do que o meu. Quando conseguem um pouco de palha, comem. Água! Só o que sobra do resfetalar-se do gado gordo.

E assim caminho; cada dia, é um dia a menos. Eu penso comigo: graças a Deus, um dia a menos….
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(*) Ilustração feita por Joandre Oliveira Melo, três de janeiro de 2009. A intenção era mostrar um burrinho puxando uma carroça transbordando cenouras, fresquinhas, e um fazendeiro a guiar o burrinho com destas suculentas cenouras. Porém, o burrinho jamais comerá a cenoura e nunca saberá o peso que está carregando nas costas.

Artigo: Recordar é viver…

Posted in Artigos, Economia às 2:08 am por espacointuicao

O artigo abaixo merece ser reproduzido. Ele foi publicado na Folha de S.Paulo em 02 de janeiro de 2009:

VINICIUS TORRES FREIRE 

Recordar é viver: blablablá 2008


Mentiras, confissões e algumas frases mais notórias dos líderes da economia do “mundo livre” no ano passado


OS “LÍDERES do mundo livre”, dos mercados antes liberalérrimos e outros senhores do universo estão em recesso. Ainda não há mentiras e blablablás novos para registrar. Mas recordar é viver. 
Antes da nova safra de cascatas ideológicas, segue um resumo do lixo tóxico verbal de 2008 na economia. “Não acho que vamos para uma recessão.” George Bush, presidente dos EUA, em março. “Os fundamentos da economia americana são fortes.” John McCain, então candidato a presidente dos EUA, 17 de abril. “O pior provavelmente já passou. 
Não há dúvida de que as coisas vão muito melhor agora do que em março.” Henry Paulson, maio de 2008. “É bem possível que em algum momento [do ano] tenhamos um ou dois trimestres de crescimento negativo, mas recessão não é de modo algum a nossa projeção central.” Mervyn King, presidente do Banco da Inglaterra (BC inglês), em maio. 
“O estímulo fiscal vai dar apoio à economia enquanto enfrentamos a correção imobiliária, o tumulto nos mercados e a alta do preço da comida e do petróleo… Mas esperamos ver a economia crescer num ritmo mais forte antes do final do ano.” Henry Paulson, maio de 2008. 
“Não há dúvida. Wall Street tomou uma bebedeira e agora está de ressaca. A questão é por quanto tempo Wall Street vai ficar sóbria, sem mexer com esses instrumentos financeiros extravagantes”, George Bush, 18 de julho. “Quando encontrar um “short seller”, vou arrancar seu coração e comê-lo diante dos olhos dele, enquanto ele ainda estiver vivo”, Richard Fuld, presidente do Lehman Brothers, em setembro, que atribuiu a queda de seu banco à ação de “short sellers” (quem vende ações a descoberto, sem tê-las, acreditando na baixa do papel). 
“Seu banco quebrou, nossa economia está em crise, mas o senhor conseguiu manter seus US$ 480 milhões. Tenho uma pergunta muito básica para o senhor: isso é justo?” Henry Waxman, deputado americano, para Richard Fuld, em outubro. “Descobri uma falha [nos mercados livres]. Não sei quão significativa ou permanente ela é. Mas esse fato tem me angustiado”, Alan Greenspan, ex-presidente do Fed (1987-2006), 23 de outubro. “No último ano [2007/8], a falta de confiança na validade dos registros contábeis de bancos (…) provocou uma maciça relutância de emprestar a eles [aos bancos] (…). Alguns dos pilares da competição de mercado falharam”, Greenspan. 
“Eu e outros estávamos enganados quando dissemos que a crise do “subprime” seria limitada.” Ben Bernanke, presidente do Fed, o BC dos EUA, semana 25 de novembro. “Tudo era só uma grande mentira”, frase atribuída a Bernard Madoff, que a teria dito em dezembro a sócios, “revelando” a fraude de US$ 50 bilhões. Madoff, 2007: “No ambiente regulatório de hoje, é virtualmente impossível violar regras”. “Sabe, sou o presidente [nesse período de crise]. Mas acho que, quando escreverem a história deste período, as pessoas vão ver que um monte de decisões foi tomado em Wall Street há uma década, por aí, antes que eu fosse presidente, quando eu estava chegando ao governo”, George Bush, 1º de dezembro. 

vinit@uol.com.br

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Referências:

Artigo publicado na folha de S.Paulo, seção: Dinheiro, p. B3 de 02 de Janeiro de 2009, disponível no site: http://www.folha.com.br em 03/01/2009, 00:18hs. Todos os créditos à Folha de S. Paulo e ao autor do artigo.

Liberte seu pássaro em 2009.

Posted in Poemas às 1:32 am por espacointuicao

O pássaro cativo (Olavo Bilac),

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo. 
Por que é que, tendo tudo, há de ficar 
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem, 
Talvez os teus ouvidos escutassem 
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi…
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade…
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão…

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Referências

Poema Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br/bilac2.html#cativo

(*) Imagem disponível em http://www.cliohistoria.hpg.ig.com.br/bco_imagens/debret/acoite.jpg, 02/01/2009, 23:44hs