agosto 15, 2009

Apologia à "Primeira Pedra"

Posted in Meus textos às 10:38 pm por espacointuicao

Joandre Oliveira Melo

Na última sexta-feira, lendo a coluna da preclara escritora Ana Cláudia, ilustre ocupante de uma cadeira na Academia de Letras de Pará de Minas, no Jornal Diário – o que faço frequentemente, principalmente as colunas dos escritores de Pará de Minas – deparei-me com a opinião da nobre escritora sobre as acusações que pesam sobre alguns políticos brasileiros, onda que espalha-se e encontra ressonância nos espíritos do sofrido povo brasileiro, e traz consigo indignação e o desprezo pela política e assuntos afins e, que tanto mal tem trazido para o povo, aquele que vota e acredita que as coisas melhorarão.

As sóbrias palavras da escritora encontraram eco em minhas convicções de que existe em nós uma maquiavélica cultura de fazer ou ver o outro sofrer. Não é preciso lembrar as famosas “vídeo-cassetadas” apresentadas por uma grande e poderosa emissora de TV ou as não menos bárbaras pegadinhas veiculadas em outras emissoras. Ainda, a onda de desespero e desalento com a política e os políticos que a fazem, parece legitimar uma situação de revanchismo levando as pessoas a agirem por contravenções, justificando-se que aquilo que sonegam, será inevitavelmente apropriado indevidamente por homens inescrupulosos e que, na posição que ocupam, deveriam defender o povo, pois foi por esse povo investido do poder que ora usufruem.

Tal é o clamor da escritora quando indaga: “(…)Em pequenas proporções todos nós somos corruptos. Quem não quer levar vantagem no seu dia-a-dia? Quem devolve um troco recebido a mais? Quem não utiliza um jeitinho de anular uma multa? De ter um lucro a mais? De fazer prova olhando uma ‘colinha’? De usar influência para arrumar um emprego para um familiar ou amigo?(…)”. Ora tudo isto é bem verdade e passam despercebidos em nosso cotidiano. Gostaria, continua a escritora, de ver um senado moralizado, um povo cumpridor das suas obrigações, mas, sobretudo críticos e exigentes em relação à uma postura responsável dos políticos.

O desejo da nobre escritora é realmente legítimo, está velho e desgastado; não se deve, contudo, esquecê-lo. Sabemos do poder do mercado. As relações mercantilistas forjadas durante séculos não se dobram tão facilmente aos discursos e nem ao capricho dos nossos desejos.

No entanto, pesam sobre nossos ombros essa situação vil que nos acomete. Embora o processo histórico seja decisivo, não é permanente e nem imutável nossa condição. Não existe um sistema soberano, além dos desejos e das ações dos homens; eles o criaram, mas se esquecem disto e consideram-no transcendente à sua vontade Retomando, nossa posição é decisiva diante das situações, corrigindo nosso modo de ser: pensando em comunidade e não apenas em si ou pessoas da nossa familia. É preciso romper as barreiras e experimentarmos a liberdade de podermos considerar nossa família, todos aqueles que estão próximos a nós nos momentos de nossa vida. Podemos “pensar globalmente e agir localmente”. É preciso, baseando-me na eminente escritora, quebrar os grilhões da individualidade.

Por outro lado, o enfraquecimento dos meios de comunicação, sérios – que hoje vivem de escândalos, do apelo à sexualidade e das desgraças que acometem a sociedade -, em parte por nossa ausência de crítica, por essa cultura provinciana da (des)informação, do culto aos processos alienantes (futebol, a cerveja, à vida encerrada em nossas casas, nossos sítios e nos computadores). Mas, também pelo processo globalizado, pela modernização e disseminação da informação como produto do mercado através da Internet e dos fabulosos meios de comunicação modernos. O atual estado degradante dos meios de comunicação sérios levou o grande filósofo da atualidade Jürgen Habermas a propor a estatização de tais meios como solução.

É visível, que as dificuldades da modernidade, fizeram os jornais e revistas sérios curvarem-se ao poder do mercado transformando-se em apenas Meios de Comunicação de Massa. Esses Meios agora podem trabalhar a favor do capital e das elites, legitimando sua posição, levando-nos à massificação e alienação. Já ouviu-se o clamor de alguns de que vivemos de escândalos em escândalos. A mídia empresta seu poder ao seu verdugo para a manipulação das intenções do povo e, de acordo com os interesses, um a um os escândalos são esquecidos, são substituídos por outros mais recentes até não serem mais lembrados.

Resumindo, encontro dois problemas principais que concorrem para a atual situação degradante, além do processo histórico que não está em questão aqui, tendo em vista que disse ser algo mutável através de nossas ações. O primeiro é o nosso desinteresse para com as coisas públicas, com as nossas instituições. A alienação degradante do povo brasileiro que se deixa levar ao sabor da manipulação do mercado. Nosso desinteresse pelo outro. O segundo é o mercado e sua visão individualista de mundo. O segundo influencia o primeiro que alimenta e perpetua o segundo.

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Referências
SALDANHA, Ana Cláudia. A primeira pedra. publicado no Jornal Diário em 14 de agosto de 2009. p. 8

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agosto 3, 2009

Devaneios de uma noite sem dormir…

Posted in Meus textos às 1:09 am por espacointuicao

Joandre Oliveira Melo

Vocês já passaram por aquelas intermináveis noites, quando não conseguimos dormir e, irritados com o dia amanhecendo e a hora de se levantar para trabalhar aproximando-se, a cada toque do despertador sobre o criado-mudo – com seu tic-tac insolente que parece zombar de nosso infortúnio, adentra a madrugada? Você sabe que o cansanço abaterá sem piedade durante as longas horas de trabalho no dia seguinte.

Numa dessas terríveis noites, que me acometem frequentemente, comecei a pensar sobre mim. Sobre o que eu poderia ser, o que estaria escondido dentro de mim e além de mim; o quanto de mim vibrava lá fora. Enquanto pensava, ouvia, ao longe, o criquilar de um grilo; parecia o som de um ser galhofeiro. Será que está ele também a galhofar do meu sortilégio ou sou eu quem atribuo essa qualidade ao seu canto? Pobre grilo; está apenas a passar o tempo até o findar da noite.

Era uma noite sem lua e a escuridão envolvia a cidade que dormia, alheia aos meus sentimentos. Era noite na cidade, independente do que pensasse ou desejasse; era só a noite, e eu numa angústia nietzcheniana. Logo, acudiram-me os pensamentos noturnos. Pensei na dama da noite, senhora suprema da escuridão: assim concebia a morte.

E a noite vazia dos ruídos do dia, apenas aquele som irritantemente agudo daquele grilo galhofeiro, trazia-me à mente os atores do teatro das sombras, cuja a atriz principal é a morte.

É interessante a idéia de que exista algo além da morte; não sei se é idéia ou necessidade. De outro modo caimos no existencialismo: – Existo; e sei que existo, porém, caminho para o nada. Apenas a existência me basta.

O que me angustia é que eu sei que existo e caminho para a morte, eu tenho consciência disto; porém não posso, da mesma forma, saber (comprovar) que haja algo além da morte. Talvez por que não haja, ou talvez por que consciente da minha existência e tão apegado a ela, não consiga idealizar outra existência ou estado que não este, do qual sou prisioneiro.

As paixões me movem pela vida afora. o medo do definitivo traz tanto terror quanto o relativismo da mudança. No entanto, o definitivo na vida é a constante mudança e, só assim, observando e sentindo as mudanças é que tenho consciência que existo. Afinal só quem existe muda; quem não existe, é definitivo.

O que não daria para poder tocar, sentir ou entender o que está além. Se sou poeira de estrelas, se sei disto porque tenho consciência, logo faço parte dele (Universo); e, se torno-me parte consciente, não passo de apenas uma parte dele pensando sobre si mesmo. Assim, não existo, senão em potência.

Me vem à memória algo que li em Hegel, antes de dormir, quando explana sobre o ser-em-si e o ser-para-si. Se sou, – porque sei que existo e ouço o grilo criquilar – e tenho consciência de mim, eu sou eu e o universo é o universo. Mas, se sou parte dele, enquanto poeira de estrela e o universo é o todo, em mim está a parte. Mas, não sou apenas a parte mais minúscula e desprezível do todo, pois, eu sou um ser-para-si. Neste mesmo terreno onde ergue-se a materia do todo, deste mesmo chão que me sustenta, brotam todas as coisas; inclusive eu. Mas eu as conheço e as compreendo e sei que não estou nelas; é como se eu fosse eu e as coisas elas mesmas. Estar consciente de mim torna-me algo diferente para as coisas como as coisas o são para mim.

Além das coisas, além da consciência-para-si, existe o nada. Apenas o nada. E o nada não existe por si só. Do nada não se pode extrair a consciência. O nada não pode pensar em si mesmo Ele não é-para-si.

Para se ir além, é preciso assumir que eu existo e continuarei existindo como parte do todo sem cair no abismo do nada. Mas, se só posso conceber, devido a minha existência “natural”, aquilo que é considerado “natural”, logo, o nada não pode ser concebido (pensado), porém, a sua existência antecede a existência do todo: ou será que o nada é apenas a não existência do todo.? Isto o torna também parte do todo.