agosto 3, 2009

Devaneios de uma noite sem dormir…

Posted in Meus textos às 1:09 am por espacointuicao

Joandre Oliveira Melo

Vocês já passaram por aquelas intermináveis noites, quando não conseguimos dormir e, irritados com o dia amanhecendo e a hora de se levantar para trabalhar aproximando-se, a cada toque do despertador sobre o criado-mudo – com seu tic-tac insolente que parece zombar de nosso infortúnio, adentra a madrugada? Você sabe que o cansanço abaterá sem piedade durante as longas horas de trabalho no dia seguinte.

Numa dessas terríveis noites, que me acometem frequentemente, comecei a pensar sobre mim. Sobre o que eu poderia ser, o que estaria escondido dentro de mim e além de mim; o quanto de mim vibrava lá fora. Enquanto pensava, ouvia, ao longe, o criquilar de um grilo; parecia o som de um ser galhofeiro. Será que está ele também a galhofar do meu sortilégio ou sou eu quem atribuo essa qualidade ao seu canto? Pobre grilo; está apenas a passar o tempo até o findar da noite.

Era uma noite sem lua e a escuridão envolvia a cidade que dormia, alheia aos meus sentimentos. Era noite na cidade, independente do que pensasse ou desejasse; era só a noite, e eu numa angústia nietzcheniana. Logo, acudiram-me os pensamentos noturnos. Pensei na dama da noite, senhora suprema da escuridão: assim concebia a morte.

E a noite vazia dos ruídos do dia, apenas aquele som irritantemente agudo daquele grilo galhofeiro, trazia-me à mente os atores do teatro das sombras, cuja a atriz principal é a morte.

É interessante a idéia de que exista algo além da morte; não sei se é idéia ou necessidade. De outro modo caimos no existencialismo: – Existo; e sei que existo, porém, caminho para o nada. Apenas a existência me basta.

O que me angustia é que eu sei que existo e caminho para a morte, eu tenho consciência disto; porém não posso, da mesma forma, saber (comprovar) que haja algo além da morte. Talvez por que não haja, ou talvez por que consciente da minha existência e tão apegado a ela, não consiga idealizar outra existência ou estado que não este, do qual sou prisioneiro.

As paixões me movem pela vida afora. o medo do definitivo traz tanto terror quanto o relativismo da mudança. No entanto, o definitivo na vida é a constante mudança e, só assim, observando e sentindo as mudanças é que tenho consciência que existo. Afinal só quem existe muda; quem não existe, é definitivo.

O que não daria para poder tocar, sentir ou entender o que está além. Se sou poeira de estrelas, se sei disto porque tenho consciência, logo faço parte dele (Universo); e, se torno-me parte consciente, não passo de apenas uma parte dele pensando sobre si mesmo. Assim, não existo, senão em potência.

Me vem à memória algo que li em Hegel, antes de dormir, quando explana sobre o ser-em-si e o ser-para-si. Se sou, – porque sei que existo e ouço o grilo criquilar – e tenho consciência de mim, eu sou eu e o universo é o universo. Mas, se sou parte dele, enquanto poeira de estrela e o universo é o todo, em mim está a parte. Mas, não sou apenas a parte mais minúscula e desprezível do todo, pois, eu sou um ser-para-si. Neste mesmo terreno onde ergue-se a materia do todo, deste mesmo chão que me sustenta, brotam todas as coisas; inclusive eu. Mas eu as conheço e as compreendo e sei que não estou nelas; é como se eu fosse eu e as coisas elas mesmas. Estar consciente de mim torna-me algo diferente para as coisas como as coisas o são para mim.

Além das coisas, além da consciência-para-si, existe o nada. Apenas o nada. E o nada não existe por si só. Do nada não se pode extrair a consciência. O nada não pode pensar em si mesmo Ele não é-para-si.

Para se ir além, é preciso assumir que eu existo e continuarei existindo como parte do todo sem cair no abismo do nada. Mas, se só posso conceber, devido a minha existência “natural”, aquilo que é considerado “natural”, logo, o nada não pode ser concebido (pensado), porém, a sua existência antecede a existência do todo: ou será que o nada é apenas a não existência do todo.? Isto o torna também parte do todo.

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1 Comentário »

  1. Flávio Marcus da Silva said,

    Muito bom o seu texto. Às vezes, algo parecido acontece comigo.
    Um abraço,
    Flávio


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