novembro 5, 2009

O Homem que medita é um animal depravado?

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 12:57 am por espacointuicao

Em certo momento Rousseau afirmou, em seu discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre homens, que o homem que medita é um animal depravado. É um desterrado da sua natureza primeira, natureza pura a qual foi-lhe concedida pelo criador. Abaixo, excertos da obra para meditarmos sobre a afirmação de Rousseau.

(…) qual o motivo que poderia levar o outro a atendê-lo; ou, finalmente neste último caso, como poderiam estabelecer condições entre si. Sei que incessantemente nos repetem que nada teria sido tão miserável quanto o homem nesse estado.(…) Mas, se compreendo bem o termo “miserável”, é ele uma palavra sem sentido algum ou que só significa uma privação dolorosa e sofrimento do corpo ou da alma. Ora, desejaria que me explicassem qual poderia ser o gênero de miséria de um ser livre cujo coração está em paz e o corpo com saúde. Pergunto qual das duas – a vida civil ou a natural – é mais sucetível de tornar-se insuportável àqueles que a fruem. À nossa volta, vemos quase somente pessoas que se lamentam de sua existência, inúmeras até que dela se privam assim que podem, e o conjunto das leis divinas e humanas mal basta para deter essa desordem. Pergunto se algum dia se ouviu dizer que um selvagem [atente para a palavra “selvagem” aqui não está empregada no contexto correto, tal qual Rousseau deseja apresentar. Presume-se, assim que o selvagem já está a caminho da degeneração por possuir uma cultura. Portanto o “selvagem” deve ser entendido como “primitivo”] em liberdade pensou em lamentar-se da vida e em querer morrer. Que se julgue, pois, com menos orgulho de que lado está a verdadeira miséria. Pelo contrário, nada seria tão miserável quanto um selvagem ofuscado por luzes, atormentado por paixões e raciocinando sobre um estado diferente do seu. Deveu-se a uma providência bastante sábia o fato de as faculdades, que ele apenas possuía potencialmente, só poderem desenvolver-se nas ocasiões de se exercerem, a fim de que não se tornassem supérfluas e onerosas antes do tempo, nem tardias e inúteis ao aparecer a necessidade. O homem encontrava unicamente no instinto todo o necessário para viver no estado de natureza; numa razão cultivada só encontra aquilo de que necessita para viver em sociedade.
Parece, a princípio, que os homens nesse estado de natureza não havendo entre eles espécie alguma de relação moral ou de deveres comuns, não poderiam ser nem bons nem maus ou possuir vícios e virtudes. (…) Sem nos afastarmos do senso comum, é oportuno suspender o julgamento que poderíamos fazer de uma tal situação e desconfiar de nossos preconceitos até que, de balança na mão, se tenha examinado se há mais virtudes do que vícios entre os homens civilizados; ou se suas virtudes são mais proveitosas do que funestos seus vícios, ou se o progresso de seus conhecimentos constitui compensação suficiente dos males que se causam mutuamente à medida que se instruem sobre o bem que deveriam dispensar-se; ou se não estariam, na melhor das hipóteses, numa situação mais feliz não tendo nem mal a temer nem bem a esperar de ninguém, ao invés de ter-se submetido a uma dependência universal e obrigar-se a receber tudo daqueles que nada se obrigam a lhes dar. (ROUSSEAU. Coleção Os pensadores, 1999, pp. 74-75)

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Referências Bibliográficas.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Vol II. trad. Lourdes Santos Machado. Coleção Os pensadores. São Paulo: ed. Nova Cultural: 1999. pp. 74-75)

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outubro 31, 2009

A vida burguesa em um hotel em Balbec – parte II

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 5:53 pm por espacointuicao

Em outro momento da obra, Proust idealiza uma visão crítica sobre a condição da aristocracia em seus hábitos “plásticos”, alheia à realidade dos moradores da província de Balbec.

Ao povo rude do vilarejo, aqueles homens e mulheres são tão estranhos quanto os peixes que capturam das profundezas do mar. As realidades se chocam na visão do nosso herói e a comparação com a realidade do povo pobre da Província é inevitável. Nas palavras de Proust:

(…) E à noite não jantavam no hotel, onde os focos elétricos, jorrando luz no grande refeitório, transformavam-no em um imenso e maravilhoso aquário, diante de cuja parede de vidro a população operária de Balbec, os pescadores e também as famílias de pequeno-burgueses, invisíveis na sombra, se comprimiam contra o vidro para olhar, lentamente embalada em remoinhos de outro, a vida luxuosa daquela gente, tão extraordinária para os pobres como a de peixes e moluscos estranhos (uma grande questão social, saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim dos animais maravilhosos e se a gente obscura que olha avidamente de dentro da noite não virá colhê-los em seu aquário e devorá-los). No entanto, em meio àquela multidão suspensa e atônita no negror da noite, talvez houvesse algum escritor ou estudioso ictiologia humana, que ao ver como se fechavam as mandíbulas dos velhos monstros femininos para engolir algum pedaço de alimento, talvez se entretivesse em classificar tais monstros pelas suas raças, pelos caracteres inatos e também por esses caracteres adquiridos, graças aos quais uma velha dama sérvia, cujo apêndice bucal é o de um grande peixe marinho, come salada como uma La Rochefoucauld, porque desde a infância vive na água doce do Faubourg Saint-Germain.
(…) Infelizmente, para a minha tranquilidade, estava eu muito longe de ser como toda aquela gente. Havia alguns que me preocupavam; teria gostado que atentasse em mim um homem de fronte fugidia, olhar esquivo, que deslizava naquele meio entre os antonlhos dos seus preconceitos e da sua boa educação, e que não era nem mais nem menos que o grão-senhor da região, o cunhado de Legrandin, que costumava ir a Balbec em visita, e que aos domingos, com o Garden party que ele e a mulher ofereciam, despovoava o hotel de bom número de seus hóspedes, porque dois ou três eram realmente convidados para a festa, e outros, para que não parecesse que não o tinham sido, iam naquele dia fazer uma excursão distante. Contudo, da primeira vez em que entrou no hotel foi muito mal recebido, pois o pessoal que acabava de chegar da Côte d’Azur ignorava quem fosse aquele senhor. E não só não viera da flanela branca, mas também, fiel aos velhos usos franceses e ignorante da vida dos Palaces, tirara o chapéu ao entrar no hall porque havia senhoras; de modo que o gerente nem sequer levou a mão ao boné para saudá-lo e julgou que aquele senhor devia ser de origem humilde, o que ele chamava de homem “saliente do comum”.(…)(PROUST, Marcel. 2006, pp. 310-312)

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PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. trad. Mário Quintana; 3ª ed. rev. São Paulo: Globo, 2006 (pp. 310-312).

(*)Capa da obra citada acima.

A vida burguesa em um hotel em Balbec – parte I

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 3:57 pm por espacointuicao

Balbec é um balneário fictício na obra de Marcel Proust – “A l’ombre des jeunes filles en fleur” ( À sombra das raparigas em flor – onde nosso herói vai passar alguns dias com sua avó. Descendentes de uma rica família francesa, Proust narra as aventuras dele e de sua avó em um hotel na instância de Balbec.

Proust é referência na literatura universal e, um de seus feitos foi, através de reminiscências de sua vida burguesa, a frivolidade da vida da elite francesa do final do século XIX e início do século XX. Abaixo segue a narração de um acontecimento no hotel em Balbec onde nosso herói e sua avó, apesar de muito ricos são agastados por um fidalgo de uma antiga família da Bretanha:

(…) mas vimos, em compensação, instantes depois um fidalgote e sua filha, de uma obscura mas antiquíssima família da Bretanha, o sr. de a srta. de Stermaria, cuja mesa nos haviam dado, julgando que eles só voltariam à noite. Tendo vindo a Balbec apenas para se encontrarem com castelãos que conheciam na vizinhança, não passavam no refeitório do hotel, entre os convites aceitos fora e o pagamento de visitas, senão o tempo estritamente necessário. Era a sua arrogância que os preservava de toda a simpatia humana, de todo interesse pelos desconhecidos sentados em torno deles, e no meio dos quais o sr. de Stermaria conservava o ar glacial, apressado, distante, rude, pontilhoso e mal-intencionado que se viu, a quem jamais se tornará a ver; e com quem a gente não concebe outras relações senão defendermos contra eles o nosso frango frio e o nosso cantinho no vagão. Apenas começávamos a almoçar, quando vieram fazer-nos levantar da mesa por ordem do sr. de Stermaria, o qual acabava de chegar e, sem o menor gesto de desculpa endereçada a nós, pediu em vol alta ao mordomo que velasse para que semelhante erro nunca mais se repetisse, pois lhe era desagradável que “gente que ele não conhecia” tomasse conta da sua mesa. (PROUST, Marcel. 2006, pp. 308-309).

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PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. trad. Mário Quintana; 3ª ed. rev. São Paulo: Globo, 2006 (pp. 308-309).

(*)Capa da obra citada acima.

dezembro 29, 2008

Algo sobre Padre Antônio Vieira

Posted in Artigos com introdução, Filosofia às 11:11 pm por espacointuicao

Era minha intenção escrever aqui algo sobre o grande orador Padre Antônio Vieira no ano do seu quadringentésimo aniversário de nascimento. No entanto, não consegui escrever um bom material a tempo de ser postado no ano de 2008. Espero que, tão logo consiga escrever algo digno de tão grande homem, possa postá-lo em meu blog. Abaixo segue a biografia de Padre Antônio Vieira, de acordo com a Wikipédia. Alerto ao leitor que o texto abaixo pode conter aproximações e até erros, considerando-se que a Wikipédia é uma produção de conhecimentos aberta ao público, embora tente alcançar a excelência, o universo de informações é extraordinariamente grande, logo não sendo de total confiabilidade, siga o link: http://pt.wikipedia.org/wiki/António_Vieira
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Abaixo segue um trecho da Introdução da obra: “Sermões Escolhidos de Padre Antônio Vieira”, por José Verdasca, ver referências bibliograficas:

Interrogar-se-á o leitor não católico, o estudioso profano, ou até mesmo o aluno agnóstico, anticlerical e pragmático, sobre a oportunidade, as razões, as vantagens, e os inconvenientes, que concorrem e decorrem para o, e ou do lançamento, neste início do terceiro milênio, de uma obra do século XVII, com sermões escolhidos de Antônio Vieira, dado que se trata de prédicas de um padre nos púlpitos do Brasil e da Europa, numa época em que a Igreja – ainda toda poderosa – presidia aos destinos do Planeta, e o esclavagismo se encontrava no seu apogeu, apesar de o Renascimento ter surgido no Velho Mundo com novas práticas e idéias, entre as quais pontificava o humanismo, arejando mentes e consciências; tal interrogação teria sua razão de ser, não fosse Vieira o maior autor de língua portuguesa do século XVII – e um dos maiores de todos os tempos – e não fora a sua obra fruto de um talento inexcedível e de uma erudição ímpar, resultado de uma capacidade de intervenção oportuna e vigorosa, e consequência de uma ousadia sem limites, e de uma curiosidade intelectual única, o que a torna clássica, portanto, antológica.

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Referências Bibliográficas
Biografia de Padre Antônio Vieira. http://pt.wikipedia.org/wiki/António_Vieira Disponível em 29/12/2008 22:40.
VIEIRA, Pe. Antônio. Introdução. In.: Sermões Escolhidos. org. José Verdasca. Editora Martin Claret, São Paulo: 2003.
(*) representação de Padre Antônio Vieira, disponível em site da Wikipédia em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/28/Padre_Ant%C3%B3nio_Vieira.jpg.disponível em: 29/12/2008 – 22:46hs.
 

novembro 24, 2008

Debate: Michel Foucault e Noam Chomsky

Posted in Artigos com introdução, Vídeos filosofia às 10:01 pm por espacointuicao

Abaixo inseri um link de um debate, onde discute-se a natureza do Poder: Michel Foucault(1926-1984) e Noam Chomsky são os protagonistas. Após lerem o texto, assistam ao vídeo com parte do debate, o link encontra-se abaixo.
Michel Foucault(1926-1984) eminente filósofo e psicólogo, atreveu-se a estudar e desnudar a face do poder. Seguiu a corrente estruturalista de Levy-Strauss, adentrou-se na psiquiatria e na linguagem para tentar entender a natureza humana.

Noam Chomsky, é linguísta e professor no MIT(Massachuts Institute of technology). Ao mesmo tempo é interessado no estudo das instituições governamentais e na burocracia estatal.

Prestem atenção à exposição de Foucault sobre a dinâmica e a natureza do Poder. Para FOUCAULT, o Poder parece não ter uma forma específica, não existe enquanto algo real; todavia, emana de um conjunto de práticas e relações entre os seres viventes. O poder não está, somente no aparelho repressor do Estado, ou ainda, no aparelho jurídico. Mas, encontra-se disseminado no meio social em uma “multiplicidade de forças”, cuja a finalidade é buscar a obediência do outro, é subjulgar, levar o homem a docilidade, para que se torne útil.

Por outro lado, Noam Chomsky centraliza a sua argumentação na natureza do poder oriundos das instituições sociais: o Estado, como centralizador do Poder, por exemplo.

Abaixo, transcrevi um trecho que considero alusivo ao tema debatido, excerto extraído do livro: “Microfísica do Poder” de Michel Foucault.

(…) Ora a noção de repressão é totalmente inadequada para dar conta do que existe justamente de produtor no poder. Quando se define os efeitos do poder pela repressão, tem-se uma concepção puramente jurídica deste mesmo poder; identifica-se poder a uma lei que diz não. O fundamental seria a força da proibição. Ora, creio ser esta uma noção negativa, estreita e esquelética do poder que curiosamente todo mundo aceitou. Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer não você acredita que seria obedecido? O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir.(…)(FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, 1979: p.7-8)

Assista ao vídeo com parte do debate entre Michel Foucault e Noam Chomsky,sobre a natureza do poder, em: http://www.youtube.com/watch?v=kawGakdNoT0

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Referências bibliográficas

FOUCAULT, Michel. I. Verdade e poder. In.: Microfíscia do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p.7-8.

Vídeo disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=kawGakdNoT0, 24/11/2008. 21:18

(*) Imagem Michel Foucault(1926-1984), disponível em: Espaço Michel Foucault em 24/11/2008. 21:56.

(*) Imagem de Noam Chomsky, disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/86/Noam_chomsky.jpg, em 25/11/2008 19:39hs.

outubro 6, 2008

A crise…

Posted in Artigos, Artigos com introdução às 11:04 pm por espacointuicao

A crise financeira agrava-se dia após dia. A recomendação dos Keynesianistas não a conteve. Nuvens negras acenam no horizonte, logo teremos a repercursão no que os economistas chamam de economia real.

Fala-se no fim de Wall Street; a bolsa de NY e o índice Dow Jones despencam, a Bovespa despenca mais de 15%. Para acalmar os ânimos, hoje 06 de outubro 2008, são feitas paralisações nas negociações. O Capital cobra caro, quando exagera a ganância dos homens.

Como Benjamin Franklin, eu não consigo entender como o dinheiro pode render dinheiro. A especulação é a semente do mal capitalista. Só o trabalho, contínuo, ardúo, comunitário pode gerar riquezas. Essa “raça” de pessoas que especulam, só trazem o que há de pior na natureza humana

A situação é realmente preocupante, os fundos de pensão e previdências privadas, na minha opinião, sofrerão em breve, na carne… Em seguida, os outros segmentos… Poderá haver um comprometimento até nas negociações salariais do final de ano…

Será que mais uma vez o “comunismo” salvará o mundo…. ATÉ QUANDO SUSTENTAREMOS UM SISTEMA ONDE SOCIALIZAM-SE AS PERDAS E PRIVATIZAM-SE OS LUCROS???

Após escrever as linhas acima, na minha leitura diária do Jornal Folha de S. Paulo, deparei-me com o artigo que, incrivelmente, alinha-se ao meu pensamento.

Abaixo, reproduzo, na íntegra, o artigo do Frei Betto: “O abalo dos muros”

O abalo dos muros

FREI BETTO


O programa Bolsa-Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres?

NO PRÓXIMO ano, completam-se 20 anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da bipolaridade do mundo dividido em dois sistemas: capitalista e socialista. Agora assistimos ao declínio de Wall Street (rua do Muro), na qual se concentram as sedes dos maiores bancos e instituições financeiras.

O muro que dá nome à rua de Nova York foi erguido pelos holandeses em 1652 e derrubado pelos ingleses em 1699. Nova Amsterdam deu lugar a Nova York.

O apocalipse ideológico no Leste Europeu, jamais previsto pelos analistas, fortaleceu a idéia de que fora do capitalismo não há salvação. Agora, a crise do sistema financeiro derruba o dogma da imaculada concepção do livre mercado como única panacéia para o bom andamento da economia.

Ainda não é o fim do capitalismo, mas talvez seja a agonia do caráter neoliberal que hipertrofiou o sistema financeiro. Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços. A bolha especulativa inflou e, súbito, estourou.

Repete-se, contudo, a velha receita: após privatizar os ganhos, o sistema socializa os prejuízos. Desmorona a cantilena do “menos Estado e mais iniciativa privada”. Na hora da crise, apela-se ao Estado como bóia de salvamento na forma de US$ 700 bilhões (5% do PIB dos EUA ou o custo de todo o petróleo consumido em um ano naquele país) a serem injetados para anabolizar o sistema financeiro.

O programa Bolsa-Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres? Devido ao aumento dos preços dos alimentos, nos últimos 12 meses, o número de famintos crônicos subiu de 854 milhões para 950 milhões, segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO (Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

Quem pagará a fatura do Proer usamericano? A resposta é óbvia: o contribuinte. Prevê-se o desemprego imediato de 11 milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada.

A restrição do crédito tende a inibir a produção e o consumo. Os bancos de investimentos colocam as barbas de molho. Os impostos sofrerão aumentos. O mercado ficará sob regime de liberdade vigiada: vale agora o modelo chinês de controle político da economia, e não mais o controle da política pela economia, como ocorre no neoliberalismo.

Em 1967, J.K. Galbraith chamava a atenção para a crise do caráter industrial do capitalismo. Nomes como Ford, Rockefeller, Carnegie ou Guggenheim, exemplos de empreendedores, desapareciam do cenário econômico para dar lugar à ampla rede de acionistas anônimos. O valor da empresa deslocava-se do parque industrial para a Bolsa de Valores.

Na década seguinte, Daniel Bell alertaria para a íntima associação entre informação e especulação e apontaria as contradições culturais do capitalismo: o ascetismo (= acumulação) em choque com o estímulo consumista; os valores da modernidade destronados pelo caráter iconoclasta das inovações científicas e tecnológicas; lei e ética em antagonismo quanto mais o mercado se arvora em árbitro das relações econômicas e sociais.

Se a queda do Muro de Berlim trouxe ao Leste Europeu mais liberdade e menos justiça, introduzindo desigualdades gritantes, o abalo de Wall Street obriga o capitalismo a se repensar. O cassino global torna o mundo mais feliz? Óbvio que não. O fracasso do socialismo real significa vitória do capitalismo virtual (real para apenas um terço da humanidade)?
Também não.

Não se mede o fracasso do capitalismo por suas crises financeiras, e sim pela exclusão -de acesso a bens essenciais de consumo e direitos de cidadania, como alimentação, saúde e educação- de dois terços da humanidade. São 4 bilhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem entre a miséria e a pobreza, com renda diária inferior a US$ 2.

Há, sim, que buscar, com urgência, um outro mundo possível, economicamente justo, politicamente democrático e ecologicamente sustentável.


CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 64, frade dominicano e escritor, é autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

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Referências:

Artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 06 de outubro de 2008, na coluna Tendências/Debates, Opinião, pag. A3. Autor: Carlos Alberto Libânio Christo – Frei Betto.

setembro 21, 2008

Comentários sobre: "Karl Marx manda lembranças"

Posted in Artigos com introdução às 7:00 pm por espacointuicao

Poderíamos começar o texto abaixo como Marx começa o Manifesto do Partido Comunista: um espectro ronda as economias do mundo. O capitalismo financeiro inaugurado no século XX, alimentando-se das paixões e apetites dos homens – e, como estes parecem não ter limites – transforma-se a cada dia no sistema econômico mais devastador que surgiu na face da Terra.

Não temos dimensão dos limites desta devastação, já que parece não haver limites para a nossa imaginação. Poderemos, talvez, conter-nos após superados todos as reservas naturais de manutenção da vida no planeta, ou, quem sabe, com a teconologia avançando e com a ajuda de nossa famigerada imaginação e capacidade criativa, nos tornaremos viajantes errantes pelo espaço sideral, tal qual a famosa série norte-americana da década de oitenta – Battle Star Galactica – em busca de outro planeta azul que possa sustentar a vida. Talvez, o dia do Juízo Final esteja sinalizando no horizonte e, a grande batalha do apocalipse acontecerá redimindo nossos erros e iniciando uma nova era de ouro. Vejam, como a imaginação vagueia por um mundo sem fronteiras, apenas nestas duas últimas linhas esboçei, mesmo que muito rapidamente, duas hipóteses factíveis, porém utópicas, ainda, espero.

O que temos realmente de paupável é, sem dúvida, nossa vida cotidiana, nossas escolhas e necessidades. O mercado é a grande realidade delineadora de nossas ações. Não sei se podemos lançar-nos ao espaço como Dom Quixotes do futuro ou se estaremos dentre aqueles poupados pelo juízo final. Mas contra o mercado, eu sei que podemos; afinal, o mercado nada mais é do que o resultado de nossa relações sociais conscientes, sufocadas pela força das nossas singulares necessidades. Nietzsche, já disse que o homem cria suas leis, mas, não a vêem como fruto de sua criação e concebem algo de transcedente nelas. No entanto, abriga-se em nós as mais primitivas vontades que podem vir à tona novamente. O desejo desenfreado da busca da riqueza, do lucro fácil, pode, desta maneira, ser sufocado por um desejo mais altruísta de compartilhamento, que perdemos com a modernidade, mas, que nossos ancestrais bem o conheceram.

Adam Smith (1723-1790) não negava que o homem, em sua natureza era egoísta. E acreditava que seu egoísmo o ajudava a avançar e, poderia ser usado como uma fonte benfazeja para a felicidade e sobrevivência da humanidade. Assim, concebeu as relações sociais como algo de natural e a busca da satisfação das necessidades se daria equilibradamente. O mercado se auto-regulava, as próprias necessidades, quando satisfeitas, extinguiam-se em si mesmas. Há, até mesmo, o conceito de uma “Mão Invisível” que manipularia os destinos dos homens independente de suas vontades. Hoje, sabemos que não é bem assim, primeiro Marx (1818-1883) aponta para um inexpugnável conflito entre os homens, às vezes visível outras velado, como motor da história da humanidade. Ele não viu, sequer, resquícios de uma realidade idílica, como a proposta por Adam Smith.

Mais Adiante, no século XX, John M. Keynes (1883-1946), observou que as ações individuais não preconizavam a harmonia do mercado, mas, promoviam, na busca dos seus interesses crises periódicas. Para ajustar a economia a esta realidade alvitrou a intervenção dos Estados, em tempos de crises, para salvaguardar o sistema econômico e concomitantemente nosso estilo de vida. Talvez, a mão poderosa do Estado, patrocinado pelo dinheiro público, seja a única “mão invisível” que pudemos conceber.

A pergunta que não se cala é: até quando o sistema aguentará manter o moderno estilo consumista de vida dos bilhões de seres humanos que habitam o pequeno planeta azul o qual chamamos de Terra? ATÉ QUANDO PODEREMOS SUPORTAR A SOCIALIZAÇÃO DAS CRISES E PRIVATIZAÇÃO DO LUCROS ESCAVANDO CADA VEZ MAIS FUNDO O ABISMO QUE SEPARA OS RICOS DO POBRES?

Complementando, abaixo transcrevo um artigo publicado na folha de S. Paulo em 20 de setembro de 2008 que inspirou a publicação das singelas palavras acima.

CESAR BENJAMIN

Karl Marx manda lembranças


O que vemos não é erro; mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas


AS ECONOMIAS modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam “comportamento racional”. Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação.
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as “necessidades do estômago” são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D – D” essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D – D”. Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.

CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.



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Referências:

BENJAMIN, Cesar. Karl Marx manda lembranças. In.: seção: dinheiro. Folha S. Paulo. São Paulo: Folha S. Paulo, publicado em 20/09/2008.

(*) Imagens: Obtidas em http://pt.wikipedia.org
Foto (1): Karl Marx(1818-1883), disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fc/Karl_Marx.jpg, 21/09/2008 17:00hs
Foto (2): Adam Smith(1723-1790), disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/41/Adam_Smith.jpg, 21/09/2008 17:00hs
Foto (3): John Maynard Keynes(1883-1946), disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/66/John_Maynard_Keynes.jpg, 21/09/2008 17:00hs