outubro 20, 2009

História "Contra-factual" em Pará de Minas

Posted in Artigos, História, História do Brasil, Meus textos às 3:56 am por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo


A primeira lição que os historiadores e professores de História recebem na graduação é: “Na História não existe, Se…”. É óbvio, pois, o historiador trabalha, preferencialmente com fatos, algo que aconteceu e que pode ser sentido e interpretado. Aquilo que não fazemos ou, apenas imaginamos, não altera o curso dos acontecimentos como um todo. Para o historiador atual, cada pessoa é como uma pedra atirada em um lago de águas tranquilas; ao tocar a superfície, um conjunto de ondas espalha-se por todo o espelho d’água, em todas as direções. Arremessando mais pedras, as ondas provocadas pelas colisões com a água, sobrepõem-se interagindo com as anteriores em uma movimentação frenética e única.

Nossa breve analogia demonstra as ações solitárias de cada indivíduo interferindo no todo maior: a sociedade. Logo, se você segura algumas pedras e não as atira contra a água, a sua ausência interferirá no sistema, pois as pedras não foram atiradas, apesar de existir no grupo, assim, não interagirá com o todo: o meio social.

No entanto, você pode se perguntar: – E se as pedras fossem atiradas ao lago, no meio de milhões, faria alguma diferença? Seria suficiente para alterar o balé das ondas? A resposta seria: sim. Assim, de acordo com a analogia apresentada, seria possível escrever a História definitiva de um povo ou uma nação? A resposta, segundo o preclaro e longevo historiador, Eric Hobsbawm, seria: “não”, pois, “(…) cada geração faz suas próprias perguntas sobre o passado(…)”(HOBSBAWM, Eric. Sobre a história, São Paulo: Cia. Das Letras. 2002, p. 256).

Com efeito, não podemos fazer uma História definitiva, mas isto não invalida a atividade séria das pesquisas, nem desclassifica a História enquanto ciência. Porque, acompanhando o pensamento de Hobsbawm, os historiadores podem chegar a algum consenso em relação à interpretação dos fatos. Logo, do consenso, nascem teorias.

Hobsbawm exemplifica analisando um fato: A revolução Russa. Para ele, a Revolução Russa – processo histórico que culminou com a tomada do poder das mãos do Czar, na Rússia, em 1917, pelos Bolcheviques – tem pelo menos duas histórias entrelaçadas: A primeira, como os Russos enxergaram a revolução, sendo atores do processo. A segunda, é o sentimento do resto do mundo, que passou a viver uma polaridade ideológica, após o passagem do Czarismo para o Socialismo. Ele ainda especula enumerando possíveis situações: “Era inevitável uma Revolução na Rússia? O Czarismo podia ter se salvado? E se Lênin não tivesse voltado para a Rússia?”. As questões propostas são apenas algumas situações imaginadas por Hobsbawm. Elas não podem, no entanto, ser respondidas, pois, especulam sobre possibilidades; destarte, não haverá um consenso sobre as respostas, apenas suposições.

Kennet Maxwell, notável historiador brasilianista, é outro a aventurar-se pelo caminho do contrafactual. Para ele a História do Brasil não permite “leituras convencionais”, ou seja, as interpretações convencionais não conseguem explicar o processo histórico brasileiro, por isso, “(…) é sempre necessário pensar um pouco de forma contrafactual”.

Maxwell, escrevendo para a Folha de S. Paulo, analisa o processo singular da História Brasileira. Ele alega ser impossível encaixar a História do Brasil em interpretações ortodoxas; por isso, é importante pensar “um pouco de forma contrafactual”. Prossegue Maxwell, referindo-se ao processo de independência dos países da América Latina. Enquanto na América Espanhola houve um rompimento com as metrópoles européias, no Brasil houve uma continuidade.

Analisando a Inconfidência Mineira e a vinda da corte portuguesa para o Brasil, Maxwell conclui que esses fatos concorreram para a emancipação do Brasil. No entanto, Tiradentes tentou mudar a História, mas foi D. João quem o fez. Conclui Maxwell: “Será que o Brasil teria se saído melhor, caso Tiradentes tivesse triunfado?”

E sobre os acontecimentos em nossa região? Será que poderíamos usar uma abordagem contrafactual para imaginarmos outras alternativas? Ou será que não? Por exemplo, tomemos um fato: a demolição da antiga Matriz. Esse acontecimento, provavelmente, proporcionaria ardentes debates. Muitas hipóteses poderiam ser levantadas se fizéssemos as perguntas ao passado: – Será que a antiga Matriz de Pará de Minas, construída em inícios do século XIX e reformada por várias vezes, necessitava ser demolida? Não haveria como mantê-la erguida? Seria possível conviver o antigo e o moderno? O que a Matriz simbolizava esfacelou-se junto com suas paredes? E a fé do povo de Pará de Minas, foi afetada com o fato da demolição? Como vêem, serão infinitas as hipóteses, porém, impossível de ser respondê-las ou de haver um consenso sobre o seu desfecho.

Enfim, definitivamente, o historiador não pode, embora, busque com veemência fazê-lo, apresentar uma abordagem conclusiva para os fatos históricos. Ele não tem todas as respostas; mas, pode fazer todas as perguntas.

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Texto publicado no Jornal Diário de Pará de Minas na Coluna do Projeto Resgate Histórico.

História "não-factual" e "contra-factual"

Posted in História, Meus textos às 3:37 am por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo

Há algumas semanas escrevemos sobre a abordagem de alguns historiadores relacionada com a história “contra-factual”; ou seja, é a liberdade do historiador em divagar sobre os fatos, como resultados das circunstâncias e ações anteriormente criadas, e, que, por outro lado, poderiam ser diferentes ou, até mesmo, não existirem.

Simplificando: são suposições sobre a objetivação dos fatos; caso algo diferente tivesse acontecido, distorcendo ou mesmo inviabilizando os seus desfechos.
Mas, como em história suposições não têm a força dos fatos, esse exercício fica restrito àquele que estiver analisando o fato.

Pois bem, Paul Veyne, renomado historiador e escritor francês, amigo de Michel Foucault, outro grande ícone da elite intelectual francesa e célebre por suas teses baseadas na historiografia, aborda em sua obra – “Como se escreve a História” – um conceito interessante e até certo ponto pode confundir-nos com o que foi escrito acima. Seguindo a tradição da “escola dos Annales”, o nobre historiador, conceitua o que considera história “não-factual”. O “não-factual” aproxima-se do “contra-factual”, por não termos consciência do evento. Tanto na abordagem “contra-factual” quanto a “não-factual” não reconhecemos os fatos. Por outro lado, na abordagem “contra-factual” tenta-se, através de especulações, idealizar um novo desfecho para o fato, tornando-se extremamente difícil um consenso sobre o que poderia ter ocorrido. Logo, esta abordagem não poderia tomar corpo como uma teoria.

A abordagem “não-factual” de Veyne, no entanto, é sobre eventos cuja existência não temos consciência. De acordo com Veyne; “(…) o não-factual são eventos ainda não consagrados como tais: a história das localidades, das mentalidades, da loucura ou a procura da segurança através dos tempos. Denominar-se-á, portanto, não-factual a historicidade da qual não temos consciência como tal (…)”(VEYNE, Paul M. 2008: p29).

Destarte, de acordo com a abordagem de Veyne, os fatos do cotidiano, apesar de sua fecundidade e sua interferência no processo histórico, não são contados. Assim; o beijo do amante apaixonado, as juras de amor dos namorados, a casa antiga tombada para atender aos interesses econômicos, a floresta queimada para economizar o trabalho braçal e que servirá de pasto, o ziguezaguear solitário do carteiro que lhe traz a correspondência, os cultos dos finais de semana ou o sofrimento do pedreiro na construção de uma nova casa para alguém . Uma aparente infinidade de eventos sem valor, contudo, com grande repercussão no processo histórico de um local ou de uma região. Alterando as relações entres seus indivíduos e sua maneira de pensar.

Os acontecimentos por mais restritos que sejam influenciam no todo. Só que alguns historiadores consideram apenas o todo ou como diz Veyne: Eles reconstroem uma “História-Tratados-e-Batalhas”. A história da humanidade, no entanto, não se limita apenas a esta visão macro, ou pelo menos não deveria se limitar. Conforme Veyne: Pois, a cada dia, a cada movimento, ação, idéia estamos contribuindo para a construção da história não só de nosso local, mas interferindo no curso da história de toda a humanidade. O consenso sobre estes fatos no modelo historiográfico dos ANNALES e, exposto acima, é plenamente atingível e está sendo considerado cada vez mais pela nova leva de historiadores atuais.

Vejam o poder de nossas ações. A história não transcende o homem, mas é fruto da ação de todos…

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Baseado em:
VEYNE, Paul Marie. A noção de não-factual. In.: Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. Trad. de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. 4ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasil, 2008. pp. 28-29

novembro 14, 2007

Declínio e queda do Império Romano – Edward Gibbon

Posted in História às 1:42 pm por espacointuicao

Sinópse: Na obra monumetal obra de Edward Gibbon (1737-1794)The Decline and Fall of the Roman Empire” encontrei um trecho muito interessante, o qual gostaria de transcrevê-lo aqui. No capítulo no qual Gibbon a descreve as crueldades, loucuras e o assssínio do tirano Cômodus, filho de Marco Aurélio, está uma bela passagem sobre a natureza humana e as regras as quais criadas pelos próprios homens submetem-nos à mais terrível de todas as paixões, o desejo de poder…

“A maior parte dos crimes que perturbam a paz interna da sociedade é produzida por coerções impostas aos apetites da humanidade pelas necessárias mas desiguais leis da propriedade, que confinam a uns poucos a posse dos objetos cobiçados por muitos. De todas as nossas paixões e apetites, o amor ao poder é o de natureza mais imperiosa e insociável, pois a soberba de um homem exige a submissão da multidão. No tumulto da discórdia civil, as leis da sociedade perdem a força e o lugar delas raramente é preenchido pelas leis da humanidade. O ardor da disputa, a arrogância da vitória, o desespero do êxito, a lembrança de injúrias passadas e o temor de perigos vindouros, tudo contribui para inflamar o espírito e calar a voz da piedade. Por tais motivos, quase todas as páginas da História estão manchadas de sangue civil;(…)”

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Referências Bibliográficas

GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. Trad. José Paulo Paes. Ed. abreviada. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 – p. 111.