novembro 5, 2009

O Homem que medita é um animal depravado?

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 12:57 am por espacointuicao

Em certo momento Rousseau afirmou, em seu discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre homens, que o homem que medita é um animal depravado. É um desterrado da sua natureza primeira, natureza pura a qual foi-lhe concedida pelo criador. Abaixo, excertos da obra para meditarmos sobre a afirmação de Rousseau.

(…) qual o motivo que poderia levar o outro a atendê-lo; ou, finalmente neste último caso, como poderiam estabelecer condições entre si. Sei que incessantemente nos repetem que nada teria sido tão miserável quanto o homem nesse estado.(…) Mas, se compreendo bem o termo “miserável”, é ele uma palavra sem sentido algum ou que só significa uma privação dolorosa e sofrimento do corpo ou da alma. Ora, desejaria que me explicassem qual poderia ser o gênero de miséria de um ser livre cujo coração está em paz e o corpo com saúde. Pergunto qual das duas – a vida civil ou a natural – é mais sucetível de tornar-se insuportável àqueles que a fruem. À nossa volta, vemos quase somente pessoas que se lamentam de sua existência, inúmeras até que dela se privam assim que podem, e o conjunto das leis divinas e humanas mal basta para deter essa desordem. Pergunto se algum dia se ouviu dizer que um selvagem [atente para a palavra “selvagem” aqui não está empregada no contexto correto, tal qual Rousseau deseja apresentar. Presume-se, assim que o selvagem já está a caminho da degeneração por possuir uma cultura. Portanto o “selvagem” deve ser entendido como “primitivo”] em liberdade pensou em lamentar-se da vida e em querer morrer. Que se julgue, pois, com menos orgulho de que lado está a verdadeira miséria. Pelo contrário, nada seria tão miserável quanto um selvagem ofuscado por luzes, atormentado por paixões e raciocinando sobre um estado diferente do seu. Deveu-se a uma providência bastante sábia o fato de as faculdades, que ele apenas possuía potencialmente, só poderem desenvolver-se nas ocasiões de se exercerem, a fim de que não se tornassem supérfluas e onerosas antes do tempo, nem tardias e inúteis ao aparecer a necessidade. O homem encontrava unicamente no instinto todo o necessário para viver no estado de natureza; numa razão cultivada só encontra aquilo de que necessita para viver em sociedade.
Parece, a princípio, que os homens nesse estado de natureza não havendo entre eles espécie alguma de relação moral ou de deveres comuns, não poderiam ser nem bons nem maus ou possuir vícios e virtudes. (…) Sem nos afastarmos do senso comum, é oportuno suspender o julgamento que poderíamos fazer de uma tal situação e desconfiar de nossos preconceitos até que, de balança na mão, se tenha examinado se há mais virtudes do que vícios entre os homens civilizados; ou se suas virtudes são mais proveitosas do que funestos seus vícios, ou se o progresso de seus conhecimentos constitui compensação suficiente dos males que se causam mutuamente à medida que se instruem sobre o bem que deveriam dispensar-se; ou se não estariam, na melhor das hipóteses, numa situação mais feliz não tendo nem mal a temer nem bem a esperar de ninguém, ao invés de ter-se submetido a uma dependência universal e obrigar-se a receber tudo daqueles que nada se obrigam a lhes dar. (ROUSSEAU. Coleção Os pensadores, 1999, pp. 74-75)

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Referências Bibliográficas.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Vol II. trad. Lourdes Santos Machado. Coleção Os pensadores. São Paulo: ed. Nova Cultural: 1999. pp. 74-75)

outubro 31, 2009

A vida burguesa em um hotel em Balbec – parte II

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 5:53 pm por espacointuicao

Em outro momento da obra, Proust idealiza uma visão crítica sobre a condição da aristocracia em seus hábitos “plásticos”, alheia à realidade dos moradores da província de Balbec.

Ao povo rude do vilarejo, aqueles homens e mulheres são tão estranhos quanto os peixes que capturam das profundezas do mar. As realidades se chocam na visão do nosso herói e a comparação com a realidade do povo pobre da Província é inevitável. Nas palavras de Proust:

(…) E à noite não jantavam no hotel, onde os focos elétricos, jorrando luz no grande refeitório, transformavam-no em um imenso e maravilhoso aquário, diante de cuja parede de vidro a população operária de Balbec, os pescadores e também as famílias de pequeno-burgueses, invisíveis na sombra, se comprimiam contra o vidro para olhar, lentamente embalada em remoinhos de outro, a vida luxuosa daquela gente, tão extraordinária para os pobres como a de peixes e moluscos estranhos (uma grande questão social, saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim dos animais maravilhosos e se a gente obscura que olha avidamente de dentro da noite não virá colhê-los em seu aquário e devorá-los). No entanto, em meio àquela multidão suspensa e atônita no negror da noite, talvez houvesse algum escritor ou estudioso ictiologia humana, que ao ver como se fechavam as mandíbulas dos velhos monstros femininos para engolir algum pedaço de alimento, talvez se entretivesse em classificar tais monstros pelas suas raças, pelos caracteres inatos e também por esses caracteres adquiridos, graças aos quais uma velha dama sérvia, cujo apêndice bucal é o de um grande peixe marinho, come salada como uma La Rochefoucauld, porque desde a infância vive na água doce do Faubourg Saint-Germain.
(…) Infelizmente, para a minha tranquilidade, estava eu muito longe de ser como toda aquela gente. Havia alguns que me preocupavam; teria gostado que atentasse em mim um homem de fronte fugidia, olhar esquivo, que deslizava naquele meio entre os antonlhos dos seus preconceitos e da sua boa educação, e que não era nem mais nem menos que o grão-senhor da região, o cunhado de Legrandin, que costumava ir a Balbec em visita, e que aos domingos, com o Garden party que ele e a mulher ofereciam, despovoava o hotel de bom número de seus hóspedes, porque dois ou três eram realmente convidados para a festa, e outros, para que não parecesse que não o tinham sido, iam naquele dia fazer uma excursão distante. Contudo, da primeira vez em que entrou no hotel foi muito mal recebido, pois o pessoal que acabava de chegar da Côte d’Azur ignorava quem fosse aquele senhor. E não só não viera da flanela branca, mas também, fiel aos velhos usos franceses e ignorante da vida dos Palaces, tirara o chapéu ao entrar no hall porque havia senhoras; de modo que o gerente nem sequer levou a mão ao boné para saudá-lo e julgou que aquele senhor devia ser de origem humilde, o que ele chamava de homem “saliente do comum”.(…)(PROUST, Marcel. 2006, pp. 310-312)

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PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. trad. Mário Quintana; 3ª ed. rev. São Paulo: Globo, 2006 (pp. 310-312).

(*)Capa da obra citada acima.

A vida burguesa em um hotel em Balbec – parte I

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 3:57 pm por espacointuicao

Balbec é um balneário fictício na obra de Marcel Proust – “A l’ombre des jeunes filles en fleur” ( À sombra das raparigas em flor – onde nosso herói vai passar alguns dias com sua avó. Descendentes de uma rica família francesa, Proust narra as aventuras dele e de sua avó em um hotel na instância de Balbec.

Proust é referência na literatura universal e, um de seus feitos foi, através de reminiscências de sua vida burguesa, a frivolidade da vida da elite francesa do final do século XIX e início do século XX. Abaixo segue a narração de um acontecimento no hotel em Balbec onde nosso herói e sua avó, apesar de muito ricos são agastados por um fidalgo de uma antiga família da Bretanha:

(…) mas vimos, em compensação, instantes depois um fidalgote e sua filha, de uma obscura mas antiquíssima família da Bretanha, o sr. de a srta. de Stermaria, cuja mesa nos haviam dado, julgando que eles só voltariam à noite. Tendo vindo a Balbec apenas para se encontrarem com castelãos que conheciam na vizinhança, não passavam no refeitório do hotel, entre os convites aceitos fora e o pagamento de visitas, senão o tempo estritamente necessário. Era a sua arrogância que os preservava de toda a simpatia humana, de todo interesse pelos desconhecidos sentados em torno deles, e no meio dos quais o sr. de Stermaria conservava o ar glacial, apressado, distante, rude, pontilhoso e mal-intencionado que se viu, a quem jamais se tornará a ver; e com quem a gente não concebe outras relações senão defendermos contra eles o nosso frango frio e o nosso cantinho no vagão. Apenas começávamos a almoçar, quando vieram fazer-nos levantar da mesa por ordem do sr. de Stermaria, o qual acabava de chegar e, sem o menor gesto de desculpa endereçada a nós, pediu em vol alta ao mordomo que velasse para que semelhante erro nunca mais se repetisse, pois lhe era desagradável que “gente que ele não conhecia” tomasse conta da sua mesa. (PROUST, Marcel. 2006, pp. 308-309).

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PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. trad. Mário Quintana; 3ª ed. rev. São Paulo: Globo, 2006 (pp. 308-309).

(*)Capa da obra citada acima.

julho 17, 2009

Ética da compreensão

Posted in Textos Livros às 12:01 am por espacointuicao

A ética da compreensão é a arte de viver que nos demanda, em primeiro lugar, compreender de modo desinteressado. Demanda grande esforço, pois não pode esperar nenhuma reciprocidade: aquele que é ameaçado de morte por um fanático compreende por que o fanático quer matá-lo, sabendo que este jamais o compreenderá. Compreender o fanático que é incapaz de nos compreender é compreender as raízes, as formas e manifestações do fanatismo humano. É compreender porque e como se odeia ou se despreza. A ética da compreensão pede que se compreenda a incompreensão.(MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez. 2000, p. 99).

A conduta ética proposta pelo nobre filósofo Edgar Morin, parece-me ideal; contudo, não sei se seremos capazes de dar a outra face ou de vencermos o egoísmo para compreender o outro. Penso que, enquanto todos não pensarem como Morin, manteremos afiadas nossas espadas…

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(*) foto disponível: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/07/Edgar_Morin.jpg 16/07/2009 21:13hs.

julho 14, 2009

As cartas de amor e a juventude

Posted in Textos Livros às 12:41 am por espacointuicao

Voltei para casa. Acabava de viver o primeiro dia do ano dos homens velhos, que nesse dia se distinguem dos jovens não porque já não lhes dêem boas-festas, mas porque não acreditam mais no Ano-Novo. Eu ganhei boas-festas, sim, mas não a única que me teria alegrado: uma carta de Gilberte. E no entanto eu era ainda jovem, pois lhe escrevera uma carta com a qual esperava, contando-lhe os sonhos solitários da minha ternura, inspirar-lhe sonhos semelhantes. A tristeza dos homens que envelheceram consiste em nem ao menos pensar em escrever tais cartas, porpque já sabem que são inúteis.

(PROUST, Marcel(1871-1922). À sombra das raparigas em flor. Trad. Mario Quintana. São Paulo: Globo, 2006. p. 86)

Foto: Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/europa/images/proust_01.jpg. 13/07/2009 21:51

janeiro 26, 2009

Reminiscências de Karl Marx

Posted in Textos Livros às 11:21 pm por espacointuicao

Certa vez, conforme consta em alguns escritos, Karl Marx (1818-1883) teria pronunciado sobre o trabalho de toda a sua vida – Marx escrevera longa e concisamente sobre o capital: sua dinâmica e seus efeitos sobre a vida dos Homens -, “nunca se falou sobre o capital, tendo tanta falta dele”.

A despeito da afirmação de Marx, hoje, seu trabalho vale milhões. Milhões do “vil metal”, denominação dele acerca do dinheiro. Embora Marx tenha escrito sua obra sob extrema miséria e penúria, muitos anos após a publicação de seus trabalhos, milhares de estudiosos, ganharam a vida ou construíram seus sistemas filosóficos, debruçando-se sobre seus escritos.

Talvez o último dos filósofos “idealizadores” de sistemas, Marx, apesar de ter produzido, uma obra fenomenal, levou uma vida errante, como um Dom Quixote, lutando contra moinhos de vento.

Os infortúnios de uma vida paupérrima dilaceraram sua família; porém, não esmoreceram seu ímpeto em legar à posteridade uma vasta e rica obra.

Marx casou-se com Jenny Von Westphalen, filha de um barão Prussiano, em junho de 1843. (Mais detalhes siga os links dos nomes). Sabe-se que os dois se amavam desde muito jovens. A sra. Marx acompanhou e apoiou todas as terríveis privações que o marido sofrera, até a sua morte em Londres em dezembro de 1881. Após morte de sua esposa, Marx, entrou em decadência total – física e moralmente – e após a morte súbita de uma de suas filhas não mais se recuperou, falecendo a 18 de março de 1883.

Abaixo, gostaria de compartilhar uma carta escrita pela sra. Marx ao sr. Joseph Weydemeyer, amigo da família. Os trechos demonstram as atribulações de uma vida de privações. O excerto foi extraído da obra: “O Conceito Marxista do Homem”, escrito por Erich Fromm (ver bibliografia).

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De Jenny Marx a Joseph weydemeyer

Londres, 20 de maio de 1850

Caro Herr Weydemeyer:

Em breve fará um ano que recebi hospitalidade tão amistosa e cordial de si [sic] e de sua querida esposa, pois me senti tão confortavelmente à vontade em sua casa. Todo esse tempo nem dei sinal de vida: fiquei em silêncio quando sua esposa escreveu-me uma carta tão amiga e nem rompi o silêncio quando recebemos a notícia do nascimento de seu filho. Meu silêncio tem-me afligido muitas vezes, mas a maior parte do tempo eu não podia escrever e mesmo hoje acho isso difícil, bem difícil.

As circunstâncias, contudo, obrigam-me a pegar da pena. Peço-lhe que nos mande o mais depressa possível qualquer dinheiro que tenha sido ou venha a ser recebido da Revue. Certamente ninguém pode censurar-nos por jamais termos feito muito caso dos sacrifícios que vimos fazendo e suportando há anos, o público nunca ou quase nunca foi informado de nossa situação; meu marido é muito sensível nessas questões e preferiria sacrificar seu último recurso a apelar para a mendicância democrática como fazem os “grandes homens” reconhecidos oficialmente. Todavia, ele poderia ter contado com apoio ativo e enérgico dos amigos à Revue dele, particularmente dos de Colônia. Poderia ter contado com esse apoio antes de mais nada por parte dos que sabiam de seus sacrifícios pela Rheinische Zeitung. Em vez disso, porém, o negócio foi completamente arruinado por administração negligente e desorganizada, e não é possível dizer o que foi pior, se os atrasos dos livreiros, dos gerentes da empresa, dos conhecidos de Colônia ou a atitude dos democratas em geral.

Aqui, meu marido está quase esmagado pelas preocupações mesquinhas da vida de forma tão revoltante que tem precisado de toda sua energia, calma, sentimento nítido e calmo de dignidade para conservar-se nessa pugna de cada dia e de cada hora. Você conhece, caro Herr Weydemeyer, os sacrifícios feitos por meu marido pelo jornal. Inverteu milhares em dinheiro, assumiu os encargos de proprietário, induzido por valiosos democratas que do contrário teriam de responder pessoalmente pelas dívidas, numa época em que eram escassas as perspectivas de sucesso. Para salvar a honra política do jornal e a honra cívica de seus conhecidos de Colônia, ele ficou com toda a responsabilidade; sacrificou a tipografia, sacrificou todos os seus rendimento, e antes de sair chegou até a tomar emprestados 300 táleres para pagar o aluguel das instalações recém-alugadas e os notáveis salários dos redatores, etc. E ele teve que ser enxotado à força. Você sabe que não guardamos nada para nós. Fui a Francoforte para empenhar minha prataria – a última coisa que restava – e mandei vender minha mobília em Colônia porque estava em risco de ter minha roupa de cama e mesa e tudo o mais seqüestrados. Ao começar o infeliz período de contra-revolução, meu marido foi para Paris e segui-o com minhas três filhas. Mal havíamo-nos instalado em Paris quando ele foi expulso, e até eu e minhas filhas tivemos negada permissão para continuarmos residindo ali. Acompanhei-o para além-mar. Um mês depois nasceu nosso quarto filho. É preciso conhecer Londres e a situação daqui para entender o que é ter três crianças e dar à luz uma quarta. Só de aluguel tínhamos de pagar 42 táleres por mês. Conseguimos fazer face a isso com dinheiro que recebíamos, mas nossos parcos recursos estavam esgotados quando a Revue foi publicada. Contrariando o acordo, não fomos pagos, e mais tarde somente em pequenas somas de modo que nossa situação aqui era quase alarmante.

Descreverei para você apenas um dia daquela vida, exatamente como se passou, e verá que poucos imigrantes, talvez, tenham sofrido coisa assim. Como as amas aqui são muito caras, resolvi alimentar meu bebe pessoalmente, apesar de contínuas dores terríveis no seio e nas costas. Mas o pobre anjinho mamava tanta preocupação e ansiedade recalcada que estava sempre mal e sofria horrivelmente dia e noite. Desde que veio ao mundo ainda não dormiu uma única noite, no máximo duas ou três horas e isso raramente. Recentemente tem tido violentas convulsões também, e tem estado sempre entre a vida e a morte. Devido ao sofrimento, ele mamava com tanta força que meu seio ficou esfolado e a pele rachou, e muitas vezes o sangue entrava por sua boquinha trêmula. Eu estava um dia sentada assim com ele quando a zeladora de nossa casa apareceu. Tínhamos pago 250 táleres a ela durante o inverno combinado de dar o dinheiro no futuro não a ela mas ao senhorio, que tinha um mandato judicial contra ela. Ela negou o acordo e exigiu cinco libras que ainda lhe devíamos. Como não tínhamos o dinheiro no momento (a carta de Naut só chegou mais tarde), vieram dois meirinhos e seqüestraram todas as minhas escassas posses – roupas de linho, camas, roupas -, tudo, até o berço de meu pobre filhinho e os melhores brinquedos das minhas filhas, que ficaram chorando amargamente. Eles ameaçaram de levar tudo dentro de duas horas. Eu teria então que ficar no chão nu com minhas filhas enregeladas e meu peito doente. Nosso amigo Schramm foi correndo à cidade para buscar ajuda para nós. Entrou em uma carruagem, de aluguel, mas os cavalos dispararam ele pulou fora e foi trazido sangrando de volta para a casa, onde eu estava chorando com minhas pobres crianças tiritando.

Tivemos que deixar a casa no dia seguinte. Estava frio, chuvoso e nublado. Meu marido procurou acomodações para nós. Quando mencionava as quatro crianças, ninguém nos queria aceitar. Finalmente, um amigo auxiliou-nos, pagamos nosso aluguel e vendi às pressas todas as camas para pagar o farmacêutico, o padeiro, o açougueiro e o leiteiro que, à vista da penhora, de repente assediaram-me com suas contas. As camas que vendêramos foram tiradas e colocadas em um carrinho. O que estava acontecendo? já passava bem do pôr do sol; estávamos transgredindo a lei inglesa. O senhorio veio correndo para nós com dois policiais, sustentando que bem poderia haver alguns de seus pertences entre as coisas e que queríamos ir para o estrangeiro. Em menos de cinco minutos, havia duzentas ou trezentas pessoas paradas em trono de nossa porta – toda a turba de Chelsea. As camas foram trazidas de volta novamente – não poderiam ser entregues ao comprador antes do nascer do sol, no dia seguinte. Depois de termos vendido todos os nossos bens ficamos em condições de pagar tudo o que devíamos até o último ceitil. Fui com minhas queridinhas para os dois pequenos quartos que agora ocupamos no Hotel Alemão, nº 1, Rua Leicester, Preça Leicester. Ali, por £ 5 semanais. receberam-nos benevolamente.

Perdoe-me, caro amigo, por ter sido tão extensa e verbosa para descrever um único dia de nossa vida aqui. É irrefletido, sei disso, mas meu coração está querendo estourar esta noite, e preciso pelo menos uma vez desabafá-lo com meu mais antigo, melhor e mais sincero amigo. Não pense que essas misérias me abateram: sei muito bem que nossa luta não é isolada e que eu em particular, sou um dos escolhidos, felizes, favoritos, pois meu querido marido, o esteio de minha vida, ainda está a meu lado. O que realmente tortura minha própria alma e faz meu coração sangrar é ter de sofrer tanto por ninharias assim, que tão pouco pudesse ter sido feito para auxiliá-lo, e que ele que tão pouco pudesse ter sido feito para auxiliá-lo, e que ele que tão espontânea e alegremente ajudou a tantos outros, ficasse assim desamparado. Mas não creia, caro Herr Weydemeyer, que façamos exigência a quem quer que seja. A única coisa que meu marido podria ter pedido daqueles a quem deu suas idéias, seu estímulo e seu apoio seria mostrar mais entusiasmo no negócio e mais ajuda para a Revue. Orgulho-me e ouso fazer tal afirmação. Esse pouco lhe era devido. Não creio que fosse injusto para ninguém. É isso que me entristece. Mas meu marido é de opinão diferente. Nunca, nem mesmo nos momentos mais medonhos, ele perdeu a confiança no futuro nem mesmo seu humor jovial, e ficou satisfeito ao ver-me aninhada e nossas quatro amadas crianças aninhando-se junto da mãe querida. Ele não sabe, caro Herr Weydemeyer, que eu lhe escrevi com tanta minúcia sobre nossa situação; por isso, peço-lhe que não mencione estas linhas. Tudo que ele sabe é que lhe pedi, em nome dele, que apresse o mais possível o recolhimento e remessa de nosso dinheiro.

Adeus, caro amigo. Dê a sua esposa minhas lembranças mais carinhosas e beije seu anjinho por esta mãe que derramou muitas lágrimas pelo próprio bebe. Nossas três filhas mais velhas estão bonitas, sadias, bem dispostas e boas, e nosso rechonchudo garotinho cheio de bom-humor e das idéias mais gozadas. O pequeno diabete canta o dia inteiro com um sentimento espantoso numa voz trovejante. A casa sacode quando ele anuncia numa voz temível as palavras da Marseillaise de Freiligrath:

Vem, junho, e traze-nos nobres façanhas!
A feitos de fama nosso coração aspira.

Talvez seja o destino histórico daquele mês, como de seus predecessores, de inaugurar a luta gigantesca em que todos novamente apertaremos as mãos. Adeus!

(*) Impressa no Die Neue Zeit. vol.2, 1906-7. Traduzida do alemão, segundo o texto do jornal comparado com um fotocópia do manuscrit0.

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Referências Bibliográficas:

FROMM, Erich. De Jenny Marx a Joseph Weydemeyer. In.: Conceito marxista do homem. Trad. Octávio Alves Velho, 6ª ed. Zahar Editores, Rio de Janeiro: 1975 pp. 207-211.

(*) Foto de Jenny Von Westphalia, disponível na Wikipédia.