outubro 14, 2009

A Evolução

Posted in Poemas às 1:17 am por espacointuicao

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquissimo inimigo…
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl [paul], glauco pacigo [pascigo]…
Hoje sou homem – e na sombra enorme
vejo, a meus pés, a escada multiform,
Que desce, em espiraes, na immensidade…

Interrogo o infinito e ás vezes chóro…
Mas, estendendo as mãos no vacuo, adoro
E aspiro unicamente á liberdade…

Anthero Tarquínio de Quental(1842-1891)

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(*)Foto: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9d/Antero_de_Quental.jpg, em 13/10/2009 – 23:00hs
QUENTAL, Anthero de. Os sonetos completos de Anthero de Quental.(Martins, Oliveira [1845-1894])Texto disponível em: http://purl.pt/index/geral/aut/PT/10763.html. 14/10/2009 02:30hs
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janeiro 3, 2009

Liberte seu pássaro em 2009.

Posted in Poemas às 1:32 am por espacointuicao

O pássaro cativo (Olavo Bilac),

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo. 
Por que é que, tendo tudo, há de ficar 
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem, 
Talvez os teus ouvidos escutassem 
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi…
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade…
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão…

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Referências

Poema Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br/bilac2.html#cativo

(*) Imagem disponível em http://www.cliohistoria.hpg.ig.com.br/bco_imagens/debret/acoite.jpg, 02/01/2009, 23:44hs

fevereiro 25, 2008

ELEGIA 1938

Posted in Poemas às 10:16 pm por espacointuicao

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

(…)

Caminhas entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade.

Foto: Carlos Drummond de Andrade. Disponível em: http://www.astormentas.com/media/Carlos%20Drummond%20de%20Andrade1.jpg, 25/02/2008, 19:50

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Referências
ANDRADE, Carlos Drummond de. ELEGIA 1938. In.: Sentimento do mundo. 5ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.