outubro 31, 2009

A vida burguesa em um hotel em Balbec – parte II

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 5:53 pm por espacointuicao

Em outro momento da obra, Proust idealiza uma visão crítica sobre a condição da aristocracia em seus hábitos “plásticos”, alheia à realidade dos moradores da província de Balbec.

Ao povo rude do vilarejo, aqueles homens e mulheres são tão estranhos quanto os peixes que capturam das profundezas do mar. As realidades se chocam na visão do nosso herói e a comparação com a realidade do povo pobre da Província é inevitável. Nas palavras de Proust:

(…) E à noite não jantavam no hotel, onde os focos elétricos, jorrando luz no grande refeitório, transformavam-no em um imenso e maravilhoso aquário, diante de cuja parede de vidro a população operária de Balbec, os pescadores e também as famílias de pequeno-burgueses, invisíveis na sombra, se comprimiam contra o vidro para olhar, lentamente embalada em remoinhos de outro, a vida luxuosa daquela gente, tão extraordinária para os pobres como a de peixes e moluscos estranhos (uma grande questão social, saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim dos animais maravilhosos e se a gente obscura que olha avidamente de dentro da noite não virá colhê-los em seu aquário e devorá-los). No entanto, em meio àquela multidão suspensa e atônita no negror da noite, talvez houvesse algum escritor ou estudioso ictiologia humana, que ao ver como se fechavam as mandíbulas dos velhos monstros femininos para engolir algum pedaço de alimento, talvez se entretivesse em classificar tais monstros pelas suas raças, pelos caracteres inatos e também por esses caracteres adquiridos, graças aos quais uma velha dama sérvia, cujo apêndice bucal é o de um grande peixe marinho, come salada como uma La Rochefoucauld, porque desde a infância vive na água doce do Faubourg Saint-Germain.
(…) Infelizmente, para a minha tranquilidade, estava eu muito longe de ser como toda aquela gente. Havia alguns que me preocupavam; teria gostado que atentasse em mim um homem de fronte fugidia, olhar esquivo, que deslizava naquele meio entre os antonlhos dos seus preconceitos e da sua boa educação, e que não era nem mais nem menos que o grão-senhor da região, o cunhado de Legrandin, que costumava ir a Balbec em visita, e que aos domingos, com o Garden party que ele e a mulher ofereciam, despovoava o hotel de bom número de seus hóspedes, porque dois ou três eram realmente convidados para a festa, e outros, para que não parecesse que não o tinham sido, iam naquele dia fazer uma excursão distante. Contudo, da primeira vez em que entrou no hotel foi muito mal recebido, pois o pessoal que acabava de chegar da Côte d’Azur ignorava quem fosse aquele senhor. E não só não viera da flanela branca, mas também, fiel aos velhos usos franceses e ignorante da vida dos Palaces, tirara o chapéu ao entrar no hall porque havia senhoras; de modo que o gerente nem sequer levou a mão ao boné para saudá-lo e julgou que aquele senhor devia ser de origem humilde, o que ele chamava de homem “saliente do comum”.(…)(PROUST, Marcel. 2006, pp. 310-312)

______________________
PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. trad. Mário Quintana; 3ª ed. rev. São Paulo: Globo, 2006 (pp. 310-312).

(*)Capa da obra citada acima.

Anúncios

A vida burguesa em um hotel em Balbec – parte I

Posted in Artigos com introdução, Textos Livros às 3:57 pm por espacointuicao

Balbec é um balneário fictício na obra de Marcel Proust – “A l’ombre des jeunes filles en fleur” ( À sombra das raparigas em flor – onde nosso herói vai passar alguns dias com sua avó. Descendentes de uma rica família francesa, Proust narra as aventuras dele e de sua avó em um hotel na instância de Balbec.

Proust é referência na literatura universal e, um de seus feitos foi, através de reminiscências de sua vida burguesa, a frivolidade da vida da elite francesa do final do século XIX e início do século XX. Abaixo segue a narração de um acontecimento no hotel em Balbec onde nosso herói e sua avó, apesar de muito ricos são agastados por um fidalgo de uma antiga família da Bretanha:

(…) mas vimos, em compensação, instantes depois um fidalgote e sua filha, de uma obscura mas antiquíssima família da Bretanha, o sr. de a srta. de Stermaria, cuja mesa nos haviam dado, julgando que eles só voltariam à noite. Tendo vindo a Balbec apenas para se encontrarem com castelãos que conheciam na vizinhança, não passavam no refeitório do hotel, entre os convites aceitos fora e o pagamento de visitas, senão o tempo estritamente necessário. Era a sua arrogância que os preservava de toda a simpatia humana, de todo interesse pelos desconhecidos sentados em torno deles, e no meio dos quais o sr. de Stermaria conservava o ar glacial, apressado, distante, rude, pontilhoso e mal-intencionado que se viu, a quem jamais se tornará a ver; e com quem a gente não concebe outras relações senão defendermos contra eles o nosso frango frio e o nosso cantinho no vagão. Apenas começávamos a almoçar, quando vieram fazer-nos levantar da mesa por ordem do sr. de Stermaria, o qual acabava de chegar e, sem o menor gesto de desculpa endereçada a nós, pediu em vol alta ao mordomo que velasse para que semelhante erro nunca mais se repetisse, pois lhe era desagradável que “gente que ele não conhecia” tomasse conta da sua mesa. (PROUST, Marcel. 2006, pp. 308-309).

______________________
PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. trad. Mário Quintana; 3ª ed. rev. São Paulo: Globo, 2006 (pp. 308-309).

(*)Capa da obra citada acima.

Pará de Minas, meu amor 150 anos de histórias e estórias

Posted in Divulgação, Meus textos às 1:45 pm por espacointuicao

No dia trinta de outubro de 2009, foi lançado oficialmente o livro: Pará de Minas, meu amor 150 anos de histórias e estórias.

Sem dúvida uma grande compilação das reminiscências e dos fatos de pessoas que viveram suas vidas na, sem dúvida, mais agradável cidade do Brasil: Pará de Minas.

Esta obra escrita a várias mãos é parte integrante das comemorações do sesquicentenário de Pará de Minas.

Pará de Minas, meu amor. terra de pessoas singulares, ordeiras, pacíficas. Nesta terra vivi e viverei o resto de minha vida e quando já não a tiver mais, meus restos se juntarão para sempre ao humus fecundo desta terra. Assim, Talvez, algo de mim fará parte de algumas das criaturas que são livres e que livres voam pelos recantos da bela Pará de Minas.

Por Joandre Oliveira Melo
_____________
(*) Capa do livro: Pará de Minas, meu amor. 150 anos de histórias e estórias.

O livro que fala por si só…

Posted in Meus textos às 1:28 pm por espacointuicao

O livro é, talvez, a maior invenção humana. Nas páginas de papel de um livro ou na páginas digitais dos modernos livros virtuais, impregnamos com nossa marca.

Um bom livro leva-nos a sonhar, viajar através de suas linhas. Um livro que nos agrada, nos acalma e que nos diz o que queremos é realmente um bom livro. No final encontramos todas as respostas.

Aquele livro que nos incomoda; que o lemos, relemos, lemos novamente, em busca de respostas, mas, não as encontramos, ao contrário, somos arrastados por um dilúvio de dúvidas – Estes, são livros EXCELENTES.

Por Joandre Oliveira Melo.

outubro 20, 2009

História "Contra-factual" em Pará de Minas

Posted in Artigos, História, História do Brasil, Meus textos às 3:56 am por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo


A primeira lição que os historiadores e professores de História recebem na graduação é: “Na História não existe, Se…”. É óbvio, pois, o historiador trabalha, preferencialmente com fatos, algo que aconteceu e que pode ser sentido e interpretado. Aquilo que não fazemos ou, apenas imaginamos, não altera o curso dos acontecimentos como um todo. Para o historiador atual, cada pessoa é como uma pedra atirada em um lago de águas tranquilas; ao tocar a superfície, um conjunto de ondas espalha-se por todo o espelho d’água, em todas as direções. Arremessando mais pedras, as ondas provocadas pelas colisões com a água, sobrepõem-se interagindo com as anteriores em uma movimentação frenética e única.

Nossa breve analogia demonstra as ações solitárias de cada indivíduo interferindo no todo maior: a sociedade. Logo, se você segura algumas pedras e não as atira contra a água, a sua ausência interferirá no sistema, pois as pedras não foram atiradas, apesar de existir no grupo, assim, não interagirá com o todo: o meio social.

No entanto, você pode se perguntar: – E se as pedras fossem atiradas ao lago, no meio de milhões, faria alguma diferença? Seria suficiente para alterar o balé das ondas? A resposta seria: sim. Assim, de acordo com a analogia apresentada, seria possível escrever a História definitiva de um povo ou uma nação? A resposta, segundo o preclaro e longevo historiador, Eric Hobsbawm, seria: “não”, pois, “(…) cada geração faz suas próprias perguntas sobre o passado(…)”(HOBSBAWM, Eric. Sobre a história, São Paulo: Cia. Das Letras. 2002, p. 256).

Com efeito, não podemos fazer uma História definitiva, mas isto não invalida a atividade séria das pesquisas, nem desclassifica a História enquanto ciência. Porque, acompanhando o pensamento de Hobsbawm, os historiadores podem chegar a algum consenso em relação à interpretação dos fatos. Logo, do consenso, nascem teorias.

Hobsbawm exemplifica analisando um fato: A revolução Russa. Para ele, a Revolução Russa – processo histórico que culminou com a tomada do poder das mãos do Czar, na Rússia, em 1917, pelos Bolcheviques – tem pelo menos duas histórias entrelaçadas: A primeira, como os Russos enxergaram a revolução, sendo atores do processo. A segunda, é o sentimento do resto do mundo, que passou a viver uma polaridade ideológica, após o passagem do Czarismo para o Socialismo. Ele ainda especula enumerando possíveis situações: “Era inevitável uma Revolução na Rússia? O Czarismo podia ter se salvado? E se Lênin não tivesse voltado para a Rússia?”. As questões propostas são apenas algumas situações imaginadas por Hobsbawm. Elas não podem, no entanto, ser respondidas, pois, especulam sobre possibilidades; destarte, não haverá um consenso sobre as respostas, apenas suposições.

Kennet Maxwell, notável historiador brasilianista, é outro a aventurar-se pelo caminho do contrafactual. Para ele a História do Brasil não permite “leituras convencionais”, ou seja, as interpretações convencionais não conseguem explicar o processo histórico brasileiro, por isso, “(…) é sempre necessário pensar um pouco de forma contrafactual”.

Maxwell, escrevendo para a Folha de S. Paulo, analisa o processo singular da História Brasileira. Ele alega ser impossível encaixar a História do Brasil em interpretações ortodoxas; por isso, é importante pensar “um pouco de forma contrafactual”. Prossegue Maxwell, referindo-se ao processo de independência dos países da América Latina. Enquanto na América Espanhola houve um rompimento com as metrópoles européias, no Brasil houve uma continuidade.

Analisando a Inconfidência Mineira e a vinda da corte portuguesa para o Brasil, Maxwell conclui que esses fatos concorreram para a emancipação do Brasil. No entanto, Tiradentes tentou mudar a História, mas foi D. João quem o fez. Conclui Maxwell: “Será que o Brasil teria se saído melhor, caso Tiradentes tivesse triunfado?”

E sobre os acontecimentos em nossa região? Será que poderíamos usar uma abordagem contrafactual para imaginarmos outras alternativas? Ou será que não? Por exemplo, tomemos um fato: a demolição da antiga Matriz. Esse acontecimento, provavelmente, proporcionaria ardentes debates. Muitas hipóteses poderiam ser levantadas se fizéssemos as perguntas ao passado: – Será que a antiga Matriz de Pará de Minas, construída em inícios do século XIX e reformada por várias vezes, necessitava ser demolida? Não haveria como mantê-la erguida? Seria possível conviver o antigo e o moderno? O que a Matriz simbolizava esfacelou-se junto com suas paredes? E a fé do povo de Pará de Minas, foi afetada com o fato da demolição? Como vêem, serão infinitas as hipóteses, porém, impossível de ser respondê-las ou de haver um consenso sobre o seu desfecho.

Enfim, definitivamente, o historiador não pode, embora, busque com veemência fazê-lo, apresentar uma abordagem conclusiva para os fatos históricos. Ele não tem todas as respostas; mas, pode fazer todas as perguntas.

_____________
Texto publicado no Jornal Diário de Pará de Minas na Coluna do Projeto Resgate Histórico.

História "não-factual" e "contra-factual"

Posted in História, Meus textos às 3:37 am por espacointuicao

Por Joandre Oliveira Melo

Há algumas semanas escrevemos sobre a abordagem de alguns historiadores relacionada com a história “contra-factual”; ou seja, é a liberdade do historiador em divagar sobre os fatos, como resultados das circunstâncias e ações anteriormente criadas, e, que, por outro lado, poderiam ser diferentes ou, até mesmo, não existirem.

Simplificando: são suposições sobre a objetivação dos fatos; caso algo diferente tivesse acontecido, distorcendo ou mesmo inviabilizando os seus desfechos.
Mas, como em história suposições não têm a força dos fatos, esse exercício fica restrito àquele que estiver analisando o fato.

Pois bem, Paul Veyne, renomado historiador e escritor francês, amigo de Michel Foucault, outro grande ícone da elite intelectual francesa e célebre por suas teses baseadas na historiografia, aborda em sua obra – “Como se escreve a História” – um conceito interessante e até certo ponto pode confundir-nos com o que foi escrito acima. Seguindo a tradição da “escola dos Annales”, o nobre historiador, conceitua o que considera história “não-factual”. O “não-factual” aproxima-se do “contra-factual”, por não termos consciência do evento. Tanto na abordagem “contra-factual” quanto a “não-factual” não reconhecemos os fatos. Por outro lado, na abordagem “contra-factual” tenta-se, através de especulações, idealizar um novo desfecho para o fato, tornando-se extremamente difícil um consenso sobre o que poderia ter ocorrido. Logo, esta abordagem não poderia tomar corpo como uma teoria.

A abordagem “não-factual” de Veyne, no entanto, é sobre eventos cuja existência não temos consciência. De acordo com Veyne; “(…) o não-factual são eventos ainda não consagrados como tais: a história das localidades, das mentalidades, da loucura ou a procura da segurança através dos tempos. Denominar-se-á, portanto, não-factual a historicidade da qual não temos consciência como tal (…)”(VEYNE, Paul M. 2008: p29).

Destarte, de acordo com a abordagem de Veyne, os fatos do cotidiano, apesar de sua fecundidade e sua interferência no processo histórico, não são contados. Assim; o beijo do amante apaixonado, as juras de amor dos namorados, a casa antiga tombada para atender aos interesses econômicos, a floresta queimada para economizar o trabalho braçal e que servirá de pasto, o ziguezaguear solitário do carteiro que lhe traz a correspondência, os cultos dos finais de semana ou o sofrimento do pedreiro na construção de uma nova casa para alguém . Uma aparente infinidade de eventos sem valor, contudo, com grande repercussão no processo histórico de um local ou de uma região. Alterando as relações entres seus indivíduos e sua maneira de pensar.

Os acontecimentos por mais restritos que sejam influenciam no todo. Só que alguns historiadores consideram apenas o todo ou como diz Veyne: Eles reconstroem uma “História-Tratados-e-Batalhas”. A história da humanidade, no entanto, não se limita apenas a esta visão macro, ou pelo menos não deveria se limitar. Conforme Veyne: Pois, a cada dia, a cada movimento, ação, idéia estamos contribuindo para a construção da história não só de nosso local, mas interferindo no curso da história de toda a humanidade. O consenso sobre estes fatos no modelo historiográfico dos ANNALES e, exposto acima, é plenamente atingível e está sendo considerado cada vez mais pela nova leva de historiadores atuais.

Vejam o poder de nossas ações. A história não transcende o homem, mas é fruto da ação de todos…

_____________________
Baseado em:
VEYNE, Paul Marie. A noção de não-factual. In.: Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. Trad. de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. 4ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasil, 2008. pp. 28-29

outubro 14, 2009

A Evolução

Posted in Poemas às 1:17 am por espacointuicao

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquissimo inimigo…
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl [paul], glauco pacigo [pascigo]…
Hoje sou homem – e na sombra enorme
vejo, a meus pés, a escada multiform,
Que desce, em espiraes, na immensidade…

Interrogo o infinito e ás vezes chóro…
Mas, estendendo as mãos no vacuo, adoro
E aspiro unicamente á liberdade…

Anthero Tarquínio de Quental(1842-1891)

__________________
(*)Foto: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9d/Antero_de_Quental.jpg, em 13/10/2009 – 23:00hs
QUENTAL, Anthero de. Os sonetos completos de Anthero de Quental.(Martins, Oliveira [1845-1894])Texto disponível em: http://purl.pt/index/geral/aut/PT/10763.html. 14/10/2009 02:30hs

outubro 8, 2009

Porque eu te amo…

Posted in Músicas favoritas às 9:52 pm por espacointuicao

Advertência: A letra da música foi digitada de forma livre, portanto, podem aparecer erros ou faltar palavras. Todavia, procurei fazer o melhor para captar a letra da música que eu acho muito bonita.

Para ver o clipe da música clique no título ou Aqui.


Because I love you
Steve B.

Chords…
I caught your letter, the postman leaves in the other day.
So, I decided I’d do this song.
Just let you know, exactly the way I feel.
And Let you know my love is for real.

Because I love you and I’ll do anything,
I’ll give you my heart, my everything.
Because I love you, I’ll be by your side.
To be your light, To be your guide.

If you sure fell, that I don’t really care
And let you started to lose ground.
Just let me really show you, that truly you can count me.
That I’ll always be around.

Because I love you my heart is open door.
Girl, Don’t you want please come on in.
Because I love you and I’ll be by your side.
To be your light, to be your guide.

Chords…

If you sure feel, that I don’t really care
and that you started to lose ground.
Just let me show you
That truly you can count on me.
How I’ll always be around

Because I love, my heart is open door.
Girl, Don’t you want please come on in.
Because I love you and I’ll be by your side.
To be you light, to your guide.

Chords…

outubro 3, 2009

Prelúdio à primavera

Posted in Meus textos às 1:47 am por espacointuicao

Joandre Oliveira Melo

Hoje o Céu escureceu. O sol ainda estava a pino e uma enorme nuvem negra, vinda dos lados de nossa vizinha Itaúna, cobriu a sua luminescência, trazendo as primeiras chuvas depois do inverno; prelúdio à primavera.

O inverno ainda não findou, mas já começa a enfraquecer-se e a ceder lugar ao perscrutar de mais uma primavera que nos enche de alegria e esperança.

A época das flores, da renovação da ramaria dos arvoredos, avizinha-se. Doces odores já espalham-se pelo ar quente, parece saudar a próxima estação.

Os pássaros já pressentem a aproximação da primavera; entoam seus cantos multicores. Uma sinfonia de sons: arrulhos, chilros, silvos.

Mas a nuvem negra permanece intacta, balofa, prestes a se arrebentar – encheu-se com o calor, sugando as águas do São João e outros arroios que encontrou no caminho enquanto crescia – anuncia a primeira chuvarada, o calor sufoca e faz as primeiras gotas precipitarem-se quentes, pesadas. Despencam inclinadas pelo vento que sopra forte.

Subitamente, tudo se cala ou é suplantado pelo estrondo do choque das maciças e quentes gotas que se desfazem ao chocar-se com o solo duro e ressecado. Os raios comemoram como serpentinas e iluminam o dia que parece ter virado noite. E a nuvem escura desfaz-se aos poucos, entregando-se entre lágrimas e soluços toda a sua existência. Em breve toda a negritude pavorosa se transformará em um néctar que irromperá pelos sulcos da terra até às suas entranhas quentes e escuras; e, alimentará o submundo das raízes e sementes esquecidas. Trará à superfície novamente a vida. A vida que a sequidão e o sopro gélido do inverno roubaram.

Solitário, distante de todo esse maravilhoso espetáculo, aqui estou, preso em meu escritório, completamente seco e indiferente ao que acontece lá fora. Apenas penso nas informações que se sobrepõem com a rapidez alada da nova geração de redes de computadores. Vejo apenas a tela colorida artificialmente por luzes criadas por led’s – invenções humanas – dispostos simetricamente a criar imagens às quais respondo com frenéticos cliques do meu mouse. Neste mundo plástico, artificialmente colorido, matematicamente construído, vivo a ferros. E a bela e grandiosa ópera que se apresenta lá fora, é-me completamente indiferente.

No entanto, algo me alegra. Ao olhar, por um momento, pelo vidro da janela, açoitado pelas rajadas de gotas – como projéteis cuspidos por metralhadoras – observo um ipê a desfolhar-se. Vejo suas flores amarelas, prematuras, arrancadas impiedosamente; mas, junto com as flores sacrificadas vejo pequeninos embrulhos, observo com maior cuidado e assevero-me que são pequeninas sementes cuidadosamente embaladas em um invólucro de celulose transparente, vestidas para brotar. Arrancadas impiedosamente pelo temporal seguem tácitas em meio à barrenta enxurrada para cumprirem o seu destino…